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18/07/2016 11:00

Atividade física e tabagismo

Educação Física.org

A Organização Mundial da Saúde aponta o tabagismo como a principal causa de morte evitável do mundo e o tabagismo passivo como a terceira causa, ficando atrás somente do alcoolismo (World Health Organization; 2008; INCA, 2009).

Os números que cercam o tabagismo e a indústria tabagista são impressionantes: 1,5 bilhões de indivíduos, maiores de 15 anos, são tabagistas, que consomem mais de 7 trilhões e 30 bilhões de cigarros anualmente, o que equivale a 200.000 quilos de nicotina diária (Rosemberg, 2002; Banco Mundial, 1999; Clinical Practice Guideline Treating Tobacco Use and Dependence 2008), que causam impactos ambientais e socioeconômicos monstruosos (Ministério da Saúde 2004).

No Brasil, o número de fumantes ultrapassa os 27 milhões, e o número de cigarros consumidos por ano passa dos os 150 bilhões. Dados do Sistema Único de Saúde de 2005 relatam gastos na ordem de R$ 338.692.516,02 em custos diretos de internações por doenças ocasionadas pelo consumo de alguma forma de preparado de tabaco, como cigarro, cachimbo, narguilé, mascado, rapé, entre outras (Araújo, 2008).

Previsões alarmantes dão conta de que no ano de 2020 aproximadamente 30 milhões de pessoas morrerão por ano vítimas de doenças causadas pelo tabagismo. No Brasil esse número beira a casa dos 200.000 anuais (Pinto et al., 2010, Ministério da Saúde, 2004; INCA, 2009).

Crianças e jovens merecem atenção especial. Filhos de pais fumantes desenvolvem um risco muito maior de serem tabagistas (Ling et al., 2004). Estima-se que mais da metade das crianças no mundo estejam expostas à poluição resultante da fumaça do tabaco. A idade média do início do tabagismo é por volta dos 13 anos (Galduróz et al., 1997).

Com relação à atividade Física, Sasco et al. 2002 encontraram correlação negativa entre a prática de exercícios e o tabagismo em pré-adolescentes. Outros pesquisadores também encontraram associação negativa entre o tabagismo e qualquer nível de condicionamento físico em jovens (Rodriguez et al., 2008; Ward et al., 2003).

Embora dependa de aspectos subjetivos e individuais, a qualidade vida avaliada através de instrumentos desenvolvidos para esta finalidade se mostra inferior em fumantes e a expectativa de vida é abreviada, chegando a ser 10 anos menor do que a expectativa dos não fumantes (American Psychiatric Association, 1996; Ferrucci et al., 1999; Boutelle et al., 2000; Boyle et al., 2000; Haapanen-Niemi 1999).

A queima do cigarro gera mais de 4.720 substâncias químicas tóxicas diferentes, sendo que 60 delas têm atividade cancerígena e outras viciantes. São diversas as doenças causadas pelo tabagismo, entre elas se destacam aquelas relacionadas ao trato respiratório, diversos tipos de neoplasias malignas, doenças nos sistemas cardiovascular, digestivo, geniturinário, na gestação e no feto, entre outras (Centers for Disease Control and Prevention, 1990; American Thoracic Society, 1996; Guideline Update Panel, Liaisons, and Staff, 2008).

Embora o número no Brasil tenha caído nas últimas décadas, sendo metade do que há 20 anos, o número elevado de fumantes ainda expõe, e denuncia, a ineficiência em políticas públicas de combate ao tabagismo.

O pacote MPOWER da Organização Mundial da Saúde sugere como políticas de ação ao combate à dependência, a aplicação de proibições da publicidade, da promoção e do patrocínio do tabaco, oferecer ajuda para deixar o consumo de tabaco, elevar os impostos, advertências sobre os perigos do uso, a contra propaganda, a proteção das pessoas de fumarem tabaco e o monitoramento do consumo de tabaco e das políticas de prevenção, entre outras (WHO, 2008).

Somente entre 2% e 4% dos fumantes que desejam parar de fumar tem êxito, no entanto 80% dos fumantes desejam parar de fumar. A grande causadora desta falta de êxito vem em função de sua substância ativa de maior destaque: a nicotina (Hughes et al., 1992). A ação da nicotina no cérebro dura em média 40 minutos, produzindo alterações diversas no organismo como: taquicardia, aumento do estado de vigília, euforia, etc (DuPont et al., 1995).

Por ser classificada como uma droga de reforço, repetidas doses devem ser utilizadas para evitar os sintomas de usa ausência. Esses sintomas são chamados de abstinência e essa é a maior causa no insucesso na interrupção do uso do cigarro, pois o forte desejo de fumar leva ao insucesso na maior parte dos tratamentos (Cleopatra et al., 2005; Stolerman et al., 1991; West et al., 1989).

Mecanismos que levam à dependência: Após ser absorvida (pela pele, inalada ou oralmente), a nicotina, que é considerada pela maior parte dos estudos como o agente responsável pela dependência do tabaco, é transportada pelo sangue podendo alterar os sistemas cardiovascular, endócrino e digestivo antes mesmo de chegar ao cérebro. No cérebro se liga a receptores colinérgicos nicotínicos da acetilcolina específicos nas sinapses do tipo alfa4 e beta2, onde possui maior afinidade em preferência aos seus receptores naturais acetilcolina.

Quando os receptores são ativados por duas moléculas de nicotina liberam canais de membrana para o transporte de íons de potássio, sódio e cálcio que desencadeiam impulsos elétricos que geram potenciais de ação que se propagam rapidamente, chegando a áreas de recompensa tegmental ventral no cérebro que liberam neuro transmissores incluindo a dopamina.

Esta agirá aumentando a atividade de neurônios localizados no núcleo accubens, que é responsável pela sensação de prazer, satisfação e recompensa (Sargent, et al., 1993; Neil, 2001). Os receptores nas sinapses modificam sua conformidade se tornando cada vez mais resistentes à ação da nicotina, necessitando doses cada vez maiores para que o circuito de liberação da dopamina atinja as mesmas condições passadas.

Quando os níveis de nicotina no sangue diminuem e a sensação de prazer é diminuída sintomas como irritabilidade, desejo de fumar, ansiedade, falta de concentração, aumento no apetite, entre outros, são observados (Pontieiri et al. 1996).

Diversas são as estratégias para o auxílio dos fumantes a cessação da dependência do tabagismo e no aumento das taxas de abstinência (deRuiter et al., 2006). Dentre elas estão a reposição da nicotina através de adesivos, gomas de mascar ou spray nasal, uso de farmacológicos e o aconselhamento de profissionais da área da saúde. A chance de êxito chega a ser de duas a três vezes maiores quando o tabagista procura auxílio para a cessação.

Porém, com exceção do aconselhamento, estratégias que envolvam a reposição de nicotina ou uso de antidepressivo com ação primária de inibir a recaptação de monoaminas, como a dopamina e a adrenalina, ou que possam agir no mesmo receptor da nicotina no cérebro, reduzindo o desejo de fumar e os sintomas de abstinência associados, podem apresentar efeitos colaterais adversos e não podem ser recomendadas para todas as pessoas (Silagy et al., 2004; Jorenby et al., 1999; Hurt et al., 1997; Gorin et al., 2004).

Embora diversas pesquisas tenham verificado uma relação inversa entre o tabagismo e os níveis de atividade física, poucos estudos têm demonstrado o exercício como uma estratégia interessante na cessação do tabagismo a longo prazo (Van Rensburg et al., 2009; Boutelle et al. 2000; Boyle et al. 2000; Takemura et al. 2000; US Department of Health & Human Services, 1990).

Marcus et al. (1999) utilizaram o exercício em um programa voltado para a cessação do tabagismo e na manutenção da interrupção em um grupo de 281 mulheres sedentárias fumantes de um maço de cigarro por dia. Os indivíduos foram divididos em dois grupos, sendo que um grupo praticou atividades de alta intensidade três vezes por semana durante 12 semanas e o outro grupo participou de palestras educativas.

A abstinência ao fumo foi verificada através da coleta de saliva para a medição dos níveis de nicotina. Os resultados se mostraram significativos aos três e aos doze meses após a intervenção do exercício na cessação do fumo, sendo que o grupo controle não apresentou resultados significativos. Anteriormente, Marcus et al. (1991) já haviam demonstrado a eficiência do exercício na cessação do tabagismo, regulação do humor e controle de peso.

Prapavessis et al. (2007) encontraram resultados similares, no entanto a estratégia envolveu além dos exercícios a combinação do uso de terapia de reposição de nicotina. Os índices de abstinência verificados pela quantidade de cotinina na saliva e monóxido de carbono espirado permaneceram mais alto por um período de doze meses, pós intervenção, associados a menores ganhos de peso e melhoria na capacidade aeróbia do que os grupos controle.

Quando avaliamos a eficiência de um programa de cessação do tabagismo, os sintomas de retirada e o desejo de fumar são as principais causas de insucesso no tratamento da dependência (Van Rensburg et al.,2009; Prochaska et al., 2008).

Como efeito agudo, um volume maior de pesquisas indicaram a atividade física como uma estratégia eficiente (Janse Van Rensburg et al., 2008; Taylor et al., 2007; Scerbo et al., 2010). O exercício parece ter efeitos similares ao do hábito de fumar do ponto de vista dos processos neurobiológicos e na estimulação do sistema nervoso central (Russel et al., 1983; Disman et al., 2006).

O que não está claro ainda é a magnitude desses efeitos diante de diversas formas de prática. No entanto, pequenos períodos de atividade (dez minutos), já contribuem para reduções significativas no desejo de fumar e nos sintomas de abstinência (Prochaska et al., 2008).

Taylor et al. (2007) realizaram uma revisão de artigos para avaliar os efeitos de uma única sessão de treinamento no alívio de sintomas da dependência do tabaco como o desejo de fumar, nos sintomas da síndrome da abstinência e no humor.

Dos doze estudos analisados, comparados às condições passivas, os grupos que realizaram atividade física apresentaram resultados significativamente maiores na abstinência, como o desejo de fumar e os sintomas de retirada. Embora não tenham sido encontradas diferenças significativas entre atividades de alta ou baixa intensidade, os exercícios de alta intensidade sustentaram a alta da abstinência por maior tempo.

Everson et al. compararam diferentes intensidades de exercícios para avaliar a influência no desejo de fumar, nos sintomas da síndrome da abstinência e no humor. Os indivíduos foram submetidos a 10 minutos de exercícios em bicicleta ergométrica em intensidades diferentes 40%-59% FCR, 60%-84% FCR, ou a condição passiva (grupo controle).

Ambas as intensidades promoveram resultados positivos de atenuação nos sintomas de abstinência e sintomas de retirada. No entanto, o humor ficou alterado negativamente no grupo de intensidade mais elevada.Em outra revisão, Ussher et al. (2006) avaliaram 13 estudos para determinar a importância da atividade física na interrupção do tabagismo em fumantes ou ex-fumantes recentes. Somente o estudo de Marcus et al. (1999) apresentou eficiência para o período de 12 meses.

Pouco material foi produzido com treinamento de força. Ussher et al. (2006) verificaram os efeitos de cinco minutos de treinamento isométrico em fumante após um período de abstinência seguido de um período de sono. Foram avaliados os sintomas da retirada (depressão, estresse, tensão, concentração e inquietação) e desejo de fumar, 5, 15 e 20 minutos após o exercício.

Resultados significativamente positivos foram encontrados somente com 5 minutos após o exercício nos sintomas de abstinência. Esses achados foram confirmados em um recente estudo do mesmo autor ampliando os efeitos significativamente positivos para trinta minutos pós intervenção em fumantes pós período noturno de abstinência (Ussher, 2009).

Possivelmente o tamanho das amostras, associado às diferentes metodologias de aplicação nos protocolos de exercícios e também à avaliação de diferentes parâmetros de abstinência, possam levar a dados não conclusivos sobre a magnitude e a eficiência da atividade física.

São necessários mais estudos para esclarecer a abrangência da atividade física como ferramenta na cessação do tabagismo e para o alívio nos sintomas de retirada e no desejo de fumar. No entanto, a literatura científica já apresenta bons indícios para a prescrição dos exercícios físicos como forma de tratamento da dependência do tabaco.

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