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27/03/2004 10:40

Artistas contam agruras e alegrias da vida no picadeiro

Alessandra Bastos/ABr

Hoje, ele é domador de elefantes e dirige o circo “Le Cirque”, mas já foi acrobata, equilibrista e palhaço. Luis Stevanovich Junior, 41, é filho, neto e bisneto de artistas circenses e já nasceu num picadeiro. A família Stevanovich segue a tradição há mais de 180 anos, e os três filhos de Luis, Stefany, Emilian e Estevão – de cinco, sete e nove anos – vivem de cidade em cidade, acompanhando os pais. “Eles freqüentam as escolas do lugar onde estamos. Os maiores, com seis anos já sabiam ler”, orgulha-se.


Luis Stevanovich Junior, domador de elefantes

Para ele, o circo é uma atividade movida à paixão. “Só tendo muito amor à arte. Ontem trabalhamos por R$ 200. Só o gerador de energia custa R$ 80 por espetáculo com o diesel. A lona tem lugar para 2.000 pessoas. Os três espetáculos juntos só somaram 700 pagantes, e isso num domingo”, entristece-se Stevanovich. “O retorno é pouco, por causa da situação crítica do país. O povo não tem dinheiro para diversão”, diz o domador.

Apesar dos maus tempos vividos pelo maior espetáculo da Terra, uma coisa não mudou: a julgar pela vida dos Stevanovich, a vida de artista circense continua sendo uma eterna aventura, a cada cidade novas histórias e muito trabalho. Antes de abrir a lona ao público, é preciso alugar uma área, limpá-la, providenciar água, luz, geladeira e instalar e montar toda a estrutura. O Le Cirque esteve em Brasília até o dia 15 de março, mas, antes de chegar à cidade, já enfrentou uma primeira barreira. “Para estar aqui, precisamos de favores de deputados, porque a administração não quis o circo aqui, assim mesmo me falaram. A área para o circo em Brasília antes era o Parque da Cidade. Agora, plantaram árvores lá”, explica.

Para Stevanovich, a principal ajuda que o governo poderia oferecer era “ter espaço, áreas determinadas para esse tipo de atividade, mesmo que se cobre. Não queremos de graça”, afirma. O assistente de gabinete da Secretaria de Apoio à Preservação da Identidade Cultural do ministério da Cultura Geraldo Vitor informa que hoje há apenas ações específicas. “Quando um circo tem dificuldade em se instalar, a secretaria solicita o apoio da administração, mas não é uma intervenção”.


Geraldo Vitor busca uma maneira de padronizar os circos

Para uma solução definitiva do problema, o secretario garante que “o conselho dos secretários estaduais já está pensando numa maneira de padronizar as instalações dos circos”. Mas avisa que “não haverá uma intervenção do estado e sim um acordo entre os secretários”. O próximo encontro para a discussão do problema ocorre na segunda quinzena de março.

Depois de levantar a lona em Brasília, acontece outro problema, desta vez pessoal. Como os circenses não possuem um endereço fixo, estando muitas vezes em outros países, não vale a pena, em termos financeiros, ter um plano de saúde, já que, na maioria das vezes em que precisam usá-lo, não podem fazê-lo. A mãe de Stevanovich precisou fazer uma cirurgia. “Foi operada num hospital público, mas lá não havia UTI, e foi preciso levá-la a um hospital particular”. Tudo acabou bem, mas a conta da internação foi mais um rombo no orçamento já debilitado dos Stevanovich.

Se é preciso muito equilíbrio no picadeiro, fora dele o contorcionismo é ainda maior. A única fonte de renda do circo é a bilheteria. Se o espetáculo não lota, não há retorno. É então que começa a ginástica. O cachê dos artistas é pago semanalmente. Independente da quantidade de público, são 26 carretas que precisam de manutenção, e o material estraga rápido, já que é constantemente montado e desmontado. Por isso, precisa ser sempre renovado e é comprado em dólar. “A lona que usamos é do mesmo fabricante que faz para os circos de Mônaco e Soleil”, conta o apresentador, referindo-se a circos famosos da Europa e Canadá.

E as despesas não param por aí. No Le Cirque trabalham 60 pessoas, que precisam de hospedagem e de alimentação. Além dos artistas, os animais exigem atenção especial e quilos de capim, frutas, verduras e carne. “A alfafa vem do Paraná. Uma viagem custa R$ 11.800 e dá para 30 dias”, diz o domador. “Só de cenoura, gastei R$ 500 na semana passada”. Muitos animais não trabalham mais, porque já são velhos, mas continuam com a trupe. “São da família”, explica ele. Stevanovich reclama que o circo não tem nenhum apoio governamental. “Não tem incentivo nenhum, apesar de pagarmos todos as taxas”. Para a administradora do Le Cirque, Patrícia Cristina Amorim, a presença dos órgão públicos só acontece quando “pressionam o circo com impostos. O artista mal ganha e ainda tem que dar tudo para o sindicato. Se paga, tem que ter direito a alguma coisa. Eles dizem que tem direito a advogado”.


O lucro do circo mal sustenta os artistas e os animais

“Temos funcionários que trabalham apenas dois dias, como vamos registrar? É o fim da picada pedir isso”, reclama a administradora.

Conseguir um financiamento também é complicado, explica ela. “Quando vamos a um banco, falo que sou do circo e eles dizem que não tem financiamento porque não temos residência fixa”, queixa-se Stevanovich. Os circos não são contemplados pela Lei Rouanet, de incentivo fiscal à cultura, porque “há fins lucrativos aqui, e, se o circo não cobrar ingressos, não se mantém”, explica Geraldo Vitor.

Ele lembra que já houve uma linha de financiamento público para a classe, mas que “virou uma faca de dois gumes. Por uma falta de orientação, o circo acabava não tendo mais dinheiro e não podendo mais recorrer ao ministério, porque como não conseguia pagar as parcelas, ficava inadimplente. Percebemos que o repasse de verbas dissociado de uma outra política acabaria se tornando um círculo vicioso”, afirma. A conseqüência da falta de políticas públicas é o fechamento dos circos. “Tem muito circo acabando. O Garcia, um dos maiores circos do país, fechou no ano passado. Tinha mais de 300 pessoas que viviam, era uma companhia muito grande e se tornou inviável”, explica o artista circense.

Sem companhias, o que sobra é o desemprego e a ida dos profissionais brasileiros para outros países. “A nova geração brasileira está toda na Europa. Lá, eles ganham US$ 300 por semana, tem trapezista ganhando até US$ 1 mil por semana, e são tão considerados quanto os artistas de cinema. O Le Cirque ainda sobrevive porque é uma família, não é visto só como negócio”, ressalta Stevanovich. Para ele, o circo “é uma diversão familiar, por isso não acaba. A criança nunca mais esquece aquilo que viu, não tem pornografia, nem imoralidade”.

Para saber mais

O livro “O Circo no Brasil”, de Antônio Torres, conta
a história do circo no Brasil. Ele faz parte da série
História Visual, editado pela Funarte, em 1988.



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