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18/04/2011 11:16

Artigo: Reflexões sobre o estresse infantil

(*) Maria Cecília Rodrigues de Oliveira

O estresse é definido como uma reação emocional, envolvendo componentes físicos e psicológicos, diante de situações que promovem insegurança, medo, irritação, confusão ou até mesmo grande euforia. Qualquer mudança na vida de uma pessoa pode gerar estresse. Com crianças não é diferente.
Desde os primeiros anos de vida, as crianças podem se deparar com o nascimento de um irmão, a mudança de casa, uma nova escola, doenças, hospitalizações e outras situações. Para algumas, essas novidades podem ser sinônimos de estresse.
Crianças estressadas podem apresentar sintomas como alterações bruscas de comportamento, dificuldades em relacionamentos, problemas na escola, insônia, depressão, falta de concentração, além de dores de cabeça, doenças respiratórias, dermatológicas e gastrointestinais, entre outras.
Que razões levam o estresse infantil a ser relacionado, entre outras causas, a críticas excessivas vindas de adultos (pais e/ou professores), excesso de atividades, bullying e conflitos familiares?
As respostas a esses questionamentos não são simples nem diretas, mas também não podem ser sinônimo de acomodação ou de naturalização de um processo em curso. Recentemente, o caso de um garoto australiano, vítima de bullying na escola em que estudava, ganhou proporções midiáticas, reacendendo a discussão entre professores, pais e sociedade sobre um assunto que, para muitos, parece ser resumido em: “Crianças são assim; simplesmente brigam”.
Atribuir aos pais a culpa pela má educação de seus filhos, ou às crianças características ditas naturais para a agressão ao outro são atitudes de quem não percebe que esse comportamento decorre de um estímulo global à competição desmedida, que empurra as pessoas para a conquista de bens, poder e prestígio a qualquer custo, em que sentimentos como tolerância às diferenças, o respeito e a amizade parecem não caber.
Reduzir o estresse infantil ao escopo dos conflitos familiares faz parte de uma lógica perversa que culpabiliza os pais, em vez de olhá-los sob a perspectiva macro de um Estado que não favorece o crescimento digno e justo da sociedade, que não valoriza suas crianças como cidadãos com direitos a serem respeitados.
É necessário refletir sobre o incentivo ininterrupto à performance, ao cumprimento de metas pela exaustão, ao tratamento violento e humilhante a que muitas crianças são submetidas por outras, debaixo de olhares adultos omissos. Refletir sobre o estresse infantil é refletir com coragem sobre nossos desejos, sobre o que queremos para nossos filhos, nossas crianças e o mundo em que vivemos.
Analisar os valores que norteiam nossas ações também é imprescindível; esses valores não são melhores nem piores que outros, são apenas diferentes. Uma sociedade pluralista não pode prescindir da tolerância às diferenças para um convívio efetivamente civilizado.
Nesse sentido, o estresse infantil, os conflitos familiares, o bullying e o excesso de atividades realizadas fazem parte de uma mesma realidade. Nela, somos todos protagonistas e vítimas, com possibilidade de escolhermos entre acirrar diferenças ou construir pontes, entre assumir responsabilidades ou nos omitir.

(*) Biomédica e psicóloga, é editora de ciências e biologia da Divisão de Sistemas de Ensino da Editora Saraiva

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