Cassilândia, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

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25/05/2012 15:58

Artigo: Recessão brasileira

Dante Filho*

Recessão parece que virou palavra maldita na imprensa brasileira. Percebe-se um grande esforço de jornalistas, consultores, economistas midiáticos, evitando pronunciar algo que vem ganhando espaço no cenário econômico: o processo recessivo, com suas consequências nefastas, principalmente numa sociedade que apostou todas as fichas no consumismo sem critérios nem salvaguardas.

O País vive uma fase umbilical. Mesmo com reclamações pontuais de partes da população, refletidas no crescimento dos índices de inadimplência, carestia limitada (embora crescente), crédito controlado (apesar da propaganda do governo), baixa performance industrial, dólar em alta, greves salariais aumentado, enfim, números e fatos preocupantes, parece sobreviver entre os nativos uma espécie de triunfo da esperança sobre a razão.

No decorrer da semana passada, notou-se, porém, uma leve mudança de tom. Mesmo com queda de juros, redução de IPI, promessas de irrigação de dinheiro novo na economia, declarações otimistas de Dilma/Mântega, a reação dos mercados foi tímida: percebeu-se um anticlímax, com a turma reclamando de que isso era o mais do mesmo da Era Lula, o que, nas atuais condições, dificilmente – é o que se diz - levantará o ambiente de baixo astral reinante.

Analisando somente os principais dados do IBGE (período de janeiro a abril deste ano) pode-se observar que a tendência é de piora constante: índices inflacionários em alta, PIB em queda consecutiva (o que tecnicamente já caracteriza recessão) e custos de serviços e produtos subindo com grande vigor.

O que tem amenizado o quadro geral são dois fatores importantes que geram uma sensação de bem-estar: o índice de emprego (pelos menos até abril) é positivo e as vendas no comércio estão indo bem (pelos menos nos grandes centros metropolitanos).

O problema é que o mundo não ajuda o Brasil. A Europa vive um processo de crise complicada (apesar de que muitos brasileiros vem fazendo a enganosa comparação de que estamos melhores do que eles, embora a verdade seja de que a “crise” europeia é uma realidade incomparável porque a maioria dos países de lá – inclusive os mais pobrinhos - há muito tempo superou a questão crucial das desigualdades sociais, o que entre nós é um fenômeno permanente e insuperável). E esse processo todo vem criando uma bagunça nas relações comerciais e financeiras do mundo inteiro. O perigo é todos tornarem “gregos”.

Os Estados Unidos seguem mal das pernas, tentando superar seus dramas, com uma eleição no meio do caminho. Até agora não se sabe ao certo se Obama conseguirá se reeleger ou se será toldado pelos dilemas que enfrenta nos planos não somente da economia como dos sociais.

Mas as notícias ruins mesmo vêm da China. O País – considerado até o momento como a locomotiva do mundo – vem diminuindo acentuadamente o ritmo de seu crescimento. Com isso, as vendas de comodities que estavam assegurando bons superávits comerciais a países como o Brasil entram em processo de reversão, provocando incertezas quanto ao futuro.

Para exemplificar o ritmo da freada chinesa basta analisar a produção de energia elétrica (número que mede a pulsação do processo econômico): no último mês de abril foi de 0,7% em comparação com o mesmo período do ano passado. Um ano antes, o crescimento havia sido de 11,7%.

Todo esse cenário colide com o atual triunfalismo brasileiro. O PT criou um falso dilema ideológico no sentido de que dar destaque à iminência da crise e da recessão é torcer politicamente contra o arranjo Dilmolulista. Trata-se de pensamento tosco. Mesmo porque sem o debate consistente corre-se o risco de aprofundar o buraco que teremos que encarar mais à frente.

Acho que já deu para notar que o consumismo via ampliação de aumento de dívida das famílias só resolve alguns problemas no curto prazo. Talvez fosse o caso de se pensar em promover aumento de renda por meio de mais investimentos públicos em saúde e em qualidade da educação. Mais ainda: apostar na execução de grandes obras públicas em parceria com a iniciativa privada (usando as famosas PPPs) e, concomitantemente, promover gradual redução das cargas tributárias sobre produção, serviços e trabalho.

Ou seja, pensar mais no Brasil estrutural e menos nos resultados populares das próximas eleições. Não se pode imaginar que medidas importantes – como redução da taxa de juros – possam resolver problemas desconectados do conjunto de problemas arraigados há décadas no País. O primeiro passo é abandonar o ufanismo. A mentira pode até alegrar as pessoas. Só que na hora em que a ficha cair, as chamadas boas intenções não resolverão os problemas reais da população.



Jornalista ( dantefilho@folha.com.br)










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