Cassilândia, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

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04/09/2007 16:25

Artigo: O habitat do Jacaré-Paguá no entorno do Pantanal

Zilca Campos, Guilherme Mourão

O jacaré-paguá, Palesouchus palpebrosus, tem ampla distribuição geográfica no Brasil, porém é uma das espécies de crocodilianos mais desconhecida para a ciência. A falta de informação sobre sua biologia é um dos fatores limitantes para a conservação da espécie. A Embrapa Pantanal vem realizando pesquisas com jacaré-paguá, Paleosuchus palpebrosus, desde a década de 90 nos riachos da região da Serra do Amolar, entorno oeste do Pantanal, e nos rios do entorno do Pantanal. Desde 2001, em parceria com o INPA Ecologia, o jacaré-paguá vem sendo estudado também na região de igapó do rio Solimões na Amazônia central.

O projeto “Monitoramento da área de ocorrência, estado de conservação e ecologia do jacaré-paguá no entorno do Pantanal” conta com apoio financeiro do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FUNDECT (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado do Mato Grosso do Sul) e apoio logístico do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), nos Estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Seu objetivo é de avaliar os estoques populacionais do jacaré-paguá e a qualidade dos habitats naturais para sugerir ações para conservação da espécie. Em agosto de 2006, em uma expedição de campo com 2.581 km de percurso com destino às cabeceiras dos cinco principais rios que drenam o Pantanal, constatou-se a presença do jacaré-paguá, tanto jovens como adultos, em local próximo a cachoeira, água corrente e substrato pedregoso. No entanto, esses rios (Vermelho, Taquari, Negro, Aquidauana e Miranda) encontram-se em situação alarmante, devido à retirada das matas ciliares para implantação de pastagens, assoreamento, poluição por indústrias, resíduos de frigoríficos, esgoto urbano, ocupação humana nas margens, atividade intensa de pesca profissional e turismo de pesca, além da caça predatória dos jacarés. As paisagens de florestas, cerrados e veredas próximas aos cursos desses cinco rios e respectivas nascentes sofreram e vêm sofrendo processos acelerados de mudanças e substituição total da vegetação, pela agricultura, principalmente soja, algodão, milho, e cana-de-açúcar. Vale lembrar que as usinas de álcool deixam a céu aberto seus resíduos tóxicos, vinhoto, que possivelmente são “levados” para os rios durante as chuvas.

Os rios estão sofrendo processos de mudanças em seu leito natural, tanto em profundidade como em largura. As formas mais drásticas de alteração têm sido a instalação de usinas hidrelétricas que formam grandes lagos e inundam áreas florestadas e a construção de canais de drenagem e lagos para irrigação de arroz. As pequenas vilas, povoados e cidades crescem ao longo desses rios, resultando em mudanças e destruição desses ambientes. Praticamente, nada tem sido feito para minimizar os impactos nesses ambientes aquáticos, o que é curioso, principalmente porque o abastecimento de água para consumo dos moradores e a atividade de pesca depende diretamente da qualidade da água desses rios.
Aparentemente, o jacaré-paguá tem resistido à pressão de destruição dos seus habitats aliada a enorme pressão de caça predatória que sofre nos rios próximos das cidades no entorno do Pantanal. A caça parece estar afetando o comportamento de fuga do jacaré-paguá, sendo difícil a aproximação até uma distância que possibilite a sua captura para estudo. Em geral, tão logo o motor de barco é ligado e/ou são acesas, os jacarés fogem e se escondem em locais de difícil acesso. Os pescadores relataram que o jacaré-paguá, conhecido como “cascudo” é caçado e dele se faz uma deliciosa “sopa”. Afirmaram ainda que o jacaré pode ser morto ou simplesmente ter sua cauda retirada e solto “vivo” no ambiente. O mesmo procedimento vem ocorrendo com jacaré-do-pantanal, Caiman crocodilus yacare. Segundo relato de pescadores e ribeirinhos na região do Pantanal, os turistas oferecem, cerca de U$ 50,00 por jacaré. As populações de jacarés-paguá e seus habitats encontram-se protegidos apenas em duas Unidades de Conservação: Estação Ecológica Serras das Araras e o Parque Nacional da Serra da Bodoquena.

O estudo pretende estabelecer um programa de monitoramento das populações do jacaré-paguá e de seus habitats no entorno do Pantanal, a fim de que ações de conservação sejam iniciadas urgentemente nos municípios, aliado a educação ambiental das futuras gerações e assim despertar o amor e o respeito pela natureza. O jacaré-paguá pode ser considerado uma espécie-indicadora na avaliação da qualidade dos rios o entorno do Pantanal e para a indicação de criação de novas unidades de conservação na região.

Para conhecer mais sobre o assunto:
CAMPOS, Z.; COUTINHO, M.; ABERCROMBIE, C. Size structure and sex ratio of dwarf caiman. Herpetological Journal, v.5, p.321-322, 1995.

CAMPOS, Z.; MOURÃO, G. Conservation status of the dwarf caiman, Paleosuchus palpebrosus, in the region surrounding Pantanal. Crocodile Specialist Group, Newsletter, v.25, n.4, p.9-19, 2006.

CAMPOS, Z.; SANAIOTTI. Paleosuchus palpebrosus. (Nesting). Herpetological Review, v.37, n.1, 81p., 2006.
MAGNUSSON, W. E. Paleosuchus palpebrosus. Catalogue of American Amphibians and Reptiles. v.2, p.554-555, 1982.
MAGNUSSON, W. E. Paleosuchus. In: Crocodiles: Their Ecology, management and conservation. A special publication of the IUCN/SSC Crocodile Specialist Group. Gland, Switzerland: IUCN, 1989. p.168-175. 1989.

________________________________________
Zilca Campos (zilca@cpap.embrapa.br) é Dra. em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre; e Guilherme de Miranda Mourão (gui@cpap.embrapa.br) é Dr. em Fauna Silvestre, são pesquisadores da Embrapa Pantanal (www.cpap.embrapa.br) - Corumbá, Mato Grosso do Sul.

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