Cassilândia, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

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30/12/2004 07:04

Artigo: o conto de Edna Menezes

Edna Menezes

A escritora cassilandense Edna Menezes, hoje radicada em Campo Grande está preparando novo livro. Alguns contos serão mostrados no Cassilandianews e que serão incluidos na nova obra, que com certeza será novo sucesso, como foram os outros trabalhos. Vamos, portanto, à primeira história, uma homenagem a Nene Barbeiro.

O TELEFONEMA (Homenagem ao meu “velho”)

Eu gosto muito de visitar meu avô, não sei se o que faço é realmente uma visita. Chego e fico horas. Meu avô é uma pessoa muito interessante, estilo antigo e com velhos valores arraigados. Ele possui uma pequena venda de secos e molhados, e desde que eu me lembre continua igual. Hoje, em especial, cheguei, sentei-me em um grande banco, que ele mantém em sua companhia há anos. Esse banco, de tábuas lisas, e bem conservado, estrategicamente plantado à sombra de uma frondosa árvore, é o lugar preferido de amigos e parentes. Ali nos sentamos e ficamos em deleite, assistindo meu avô atender aos fregueses. Para cada um ele tem um sorriso, um gesto amigável e uma pequena história para contar. Até aqueles que levam consigo uma grande carga de problemas e mazelas sentem-se reconfortados e esperançosos ao falar com o velho Nenê Barbeiro. Este é o apelido carinhoso de meu avô. E por falar neste apelido, é a pessoa responsável por ele que me faz arriscar contar este caso.
O velho Nenê já passa dos sessenta e cinco anos, é o mais novo de uma prole de treze irmãos. Alguns já se foram, restam poucos. Um tio passando dos noventa, uma tia adiantada na casa dos oitenta, e os outros com um pouco menos. Nesta tarde, em que fiquei observando o meu “velho”, aconteceu algo deveras engraçado.
Ouvi o telefone tocar, meu avô foi atender e voltou dizendo que era a tia Fia (Maria), a irmã octogenária. Conversaram rapidamente e desligaram. Quando o vô voltou e sentou-se ao meu lado no velho banco. Triiim, o telefone de novo. Ele vai atender, volta e me diz.
- Era a tia Fia, ligou por engano.
Continuamos a conversar, chegou um freguês, ele foi atender, e de novo o telefone.
- Alô, é o Nenê.
- [...]
- Não, não é da farmácia.
- [...]
- Não Fia, é da casa do Nenê, seu irmão, não, não é da farmácia.
- [...]
- Está bem, não, tudo bem, tchau.
Ele volta, percebo que está um pouco contrariado.
- Quem era Vô?
- A tia Fia de novo.
- Ué, o que está acontecendo com ela. Perguntei. Havia bastante tempo que eu não via esta tia-avó.
- Ah! PC, (eu sou o PC), vou te contar a melhor. Sua avó resolveu emprestar um telefone para a velha Fia, pois, como você sabe ela esta muito velha, vive sozinha com o marido, mais velho ainda, e segundo sua avó precisam de um telefone. Nisso o telefone tocou de novo, e ele foi atender.
- Alô ! Aqui é da casa do Nenê Barbeiro.
- [...]
- Não, não é da farmácia. Fia, pare de ligar aqui, estou ocupado. Até logo.
Ele voltou enfurecido.
- Imagine, era a velha de novo. É mesmo o fim do mundo, acho que ela está caducando.
- Vô, mas por que será que ela está ligando tanto por engano?
- Não sei, sua avó foi lá na casa dela para ensiná-la a discar os números, não sei se você sabe, mas ela é analfabeta e está quase surda de todo.
- Não, isso eu não sabia, ouvi comentários de que ela estava um pouco sem audição.
- Sem audição! Ela está é surda. Você esta é usando de eufemismos.
Algum tempo se passou, parecia que ele já havia retomado seu costumeiro bom humor, os gracejos reiniciaram. Repentinamente, triiim. Ah meu Deus! O telefone. Ele foi atender, ouvi-o esbravejando.
- Não, não é da farmácia. Não!!!
Voltou furioso e dizendo.
- Eu não sei porque sua avó foi inventar esta história de telefone para aquela velha, sabe que ela nunca havia visto um telefone na vida. Era ela de novo, perguntando se era da farmácia. Imagine, agora eu virei telefonista de plantão, como se eu não tivesse nada mais a fazer. Vou dar uma bronca na sua avó, ela é a culpada disso.
- Mas, Vô, deve ter uma explicação para tanto engano. Tentei ponderar, pois ele estava deveras nervoso.
- É, deve ter. Chame sua avó, vamos indagar.
- O que foi meu velho, parece que você está tendo um ataque de nervos?
- Estou mesmo, o PC é testemunha, não posso mais trabalhar, o maldito telefone toca sem parar e para completar é sempre a velha Fia, perguntando se é da farmácia. Ora, se ela precisasse tanto assim do remédio, nestas alturas já teria morrido. Você pode me explicar o motivo dela ligar sempre aqui, por engano.
- Ah! Senhor!! A culpada sou eu, acho que só pode ser isto.
- Isto o quê? Fale logo.
- Quando eu fui ensiná-la a discar, usei o número daqui de casa como exemplo. Acho que ela pensou que se discasse este número sairia onde ela desejasse. Coitada, eu não expliquei para que serve a lista que acompanha o telefone, e nem que em cada lugar que se deseja falar é necessário um número diferente.
Nestas alturas eu não me agüentava mais de vontade de soltar uma gargalhada, a situação era cômica. Mas, me mantive firme.
- Eu sabia, isto não poderia dar certo, velha desgraçada, ignorante. Ele esbravejava. Quem visse o meu avô naquele momento não acreditaria que se tratava do mesmo velho calmo, bondoso e alegre.
- Não xingue, Nenê, fique calmo, meu velho. Tenha um pouco de paciência com sua irmã, ela está idosa e estas modernidades a assustam. Lembre-se que ela foi sua babá e continua achando que você é o “Nenê” dela. Coitadinha, te ama tanto. Espere alguns dias, ela aprende, mais tarde eu vou lá dar mais uma aula telefonistica a ela.
Esta argumentação de minha vó foi a gota d’água, comecei a rir e tenho um acesso de risos sempre que me lembro ou falo do assunto. E oportunidades de gargalhar não faltaram, contei para minhas primas e elas estimularam-me a escrever para não esquecer jamais o caso do telefone de número único.
Edna Menezes

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