Cassilândia, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

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21/12/2011 08:34

Artigo: Nosso momentos felizes nos acompanham para sempre

Terezinha Tagliaferro, de Malta

Em nossa vida se alternam momentos de altos e baixos, porém uma coisa é segura: Nossos momentos felizes nos acompanham pra sempre.E quando acontece, como no meu caso, que a minha cara metade ja esta em outra dimensao, esses momentos se tornam a mais bela recordaçao.Como voces sabem, essas recordaçoes aparecem mais forte nessa época do ano.Sendo assim,decidi escrever um pouco sobre nossos ultimos natais juntos.

Chegamos aqui em Malta em 1984.Pouco a pouco fomos nos adaptando porque foram anos de muita luta.Tivemos de recomeçar a nossa vida praticamente do zero , pois naquela época a moeda daqui era chamada “Libras Maltesas” era muito forte e valia 6 x o nosso antigo cruzeiro, de modos que, de tudo aquilo que possuiamos no Brasil pouco sobrou, apos a compra das passagens e o pagamento feito a transportadora para enviar algumas coisas da nossa mudança, somente as coisas especiais.

Nessas alturas, ficamos 3 anos sem carro, mas em 85 ja pudemos financiar a nossa casa e em fins de dezembro de 87 pudemos comprar um carro usado, que nos foi entregue 15 dias antes do Natal,era nosso maior presente .Me recordo que quando meu marido chegou com o carro fiquei muito feliz porque estava em bom estado de conservaçao.Era um carro abençoado, pertencia a um sacerdote, que nos facilitou muito nas prestaçoes.E assim, aproveitamos as festas de final de ano pra fazermos a nossa primeira viagem, que so foi possivel com a ajuda de um amigo do meu marido.Pois é, esse amigo dele tem varios apartamentos na outra Ilha, que se chama Gozo, que alugam para turismo.Como nesta época do ano é de baixa estaçao os apartamentos ficavam sem uso, ele gentilmente nos emprestava.Foi otimo.Gostamos tanto que se tornou costume, todos os anos la pelo dia 22 ou 23 de dezembro preparavamos tudo e partiamos para um descanso de 15 dias.Embora fazia muito frio e durante o dia tinha poucas horas de sol, isto, quando nao chovia,eram dias maravilhosos, que so pelo fato de estarmos juntos, nao faltava mais nada.

Levantavamos cedinho pra ir a missa, na volta compravamos tudo o necessario para se fazer um bom café da manha.O pao de la é diferente do pao daqui e nos passavamos o ano todo esperando para saborea-lo novamente.Além disso, compravamos todos os dias “gbeina” um tipo de queijinho fresco, feito de um dia para o outro.E tipico da ilha, feito com leite de cabra.E mesmo uma delicia.

Entao faziamos aquele café da manha bem reforçado, depois preparavamos uma cesta com sandwiches, frutas, saladas e bebidas e saiamos, so retornando a tarde.Deixavamos o carro em um certo lugar e depois caminhavamos a pé pelas rochas que costeavam o mar.Esses lugares so eram possiveis mesmo fazer a pé, pois nao tem estradas para carro.E assim, como nos sempre diziamos: “Durante todos esses anos, indo e vindo, pudemos conhecer todos os cantinhos mais escondidos da ilha.”

Me recordo, que nos chegavamos em Gozo, descarregavamos o carro, que sempre ia lotado, acomodavamos tudo na casa e depois a primeira coisa que faziamos era ir num determinado lugar,perto do mar, onde cresciam em abundancia, uma flor tipica do natal daqui e se chama: “ narcise”.Colhiamos tanto, colocavamos em casa porque tinha o “Perfume de Natal”e servia como nossa decoraçao.

O apartamento ficava numa cidade que se chama Xlendi, cidadezinha beira-mar.Da janela da cozinha se avistava uma paisagem maravilhosa.Se podia, ver o mar, todo o movimento da pequena praça, mas o mais importante, a montanha rochosa que havia em frente .Eu olhava todos os dias aquela majestosa colina e me sentia pequena vendo nela a potencia do Criador.Durante a noite nos dormiamos embalados pelo barulho das ondas altissimas que levadas pelo vento forte, batiam nas rochas.Também se podia ver a igreja da cidade, era pequena e tao bem decorada para a ocasiao que parecia mesmo um presépio.Ainda, soa nos meus ouvidos, as musicas natalinas que o vigario deixava o auto-falante da igreja ligado até as 23h. todos os dias.

E assim, todos os anos iamos pra la, desde 1987 até 2000.O povo dali estavam ja acostumados conosco e tinhamos até feito muitas amizades com o açougueiro, verdureiro, o paroco, o padeiro, o leiteiro, etc...

Um certo dia, decidimos subir a pé aquela montanha.Preparamos sanduiches, bebidas e saimos antes do sol surgir.Demoramos muito, mas conseguimos chegar ao topo, onde tinha uma outra cidade.Depois tivemos de dar uma volta enorme pra voltar pra casa, mas estavamos de férias e o tempo era todo nosso.Tivemos de parar e descansar muitas vezes porque o caminho era longo.

Anos depois, quando meu marido ja estava doente, voltamos la num outro periodo do ano.Ele ja nao caminhava bem e entao ficamos recordando aquele famoso dia que haviamos escalado aquela enorme montanha.So restou recordaçao....saudades....

Hoje em dia quando olho o album de fotografias e vejo as fotos, ano por ano,fico admirada de tudo aquilo que fizemos e recordo cada momento que junto passamos.Foi tudo maravilhoso, sei que teve também momentos dificeis mas o tempo se encarrega de passar massa corrida em tudo, tapando os buracos, restando apenas a pintura maravilhosa de rosa e azul.Tudo valeu a pena.

Tivemos “ Festa de Natal” de todo o tipo, nao nos faltou nada.Em 2003 passamos esse lindo dia no hospital.

Mas ainda guardo na minha caixa de recordaçoes o ultimo natal,de 2004, que passamos em companhia do Fred.Ele estava em cadeiras de rodas e ja nao se alimentava bem.Era o dia 19 de dezembro e a impressao que tinhamos era que a situaçao estava fugindo do nosso controle.Entao, decidimos antecipar o Natal.Meu cunhado, que é sacerdote veio celebrar a missa aqui em casa.Para essa ocasiao, me preparei durante todo o mes.Preparei salgadinhos tipicos brasileiros e fui congelando tudo.O Fred preparou os convites no computador e enviamos para nossos amigos e vizinhos que como Cirineu, haviam nos acompanhado e ajudado muito no nosso calvario.Tirei os moveis das duas salas que sao divididas apenas por uma arcada e se tornou uma pequena capela, onde colocamos cadeiras e decoramos tudo com enfeites natalinos.Ficou mesmo um primor.Meu vizinho trouxe o violao, todos vieram e foi uma missa maravilhosa, onde cantamos os hinos de natal.Durante essa missa o Fred tomou a palavra e agradeceu a Deus por tudo e agradeceu aos amigos, companheiros de viagem.Os presentes eram todos emocionados, mas todos se controlaram, procurando aceitar a situaçao como se apresentava.Apos a missa todos puderam saborear os salgadinhos brasileiros e gostaram muito.O Fred ainda teve oportunidade de conversar com todos até o momento que vencido pelas dores pediu licença e se retirou pra deitar um pouco. Os convidados, entao, percebendo a dor dele, também foram se despedindo deixando conosco o carinho da presença e levando com eles um exemplo de vida, que todos eles admiravam e agradeciam.E assim, aquela foi a ultima missa porque dias apos ele entrou no hospital e de la partiu para outra viagem, mas desta vez foi sozinho, levando apenas sua bagagem interior.

Cada vez que me aproximo do presépio e olho o Menino Jesus eu fico imaginando que o Fred esta melhor do que nos porque ja teve a feliciade de conhece-Lo e estar perto Dele.

E “ Viva a Vida”, e “Viva nossas recordaçoes”, que embora nos aperte o coraçao, resta sempre nossos “Momentos Felizes, inesqueciveis.”





Terezinha de Jesus Tagliaferro


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