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20/02/2011 11:55

Artigo - Finanças: Não seria melhor dar um "reset”?

Antonio De Julio*

No início da minha carreira profissional, que foi na área de TI (Tecnologia da Informação), usava-se muito o termo “dá um reset”. Isso foi durante os saudosos anos 80, início da proliferação dos computadores que rodavam os sistemas baseados na plataforma Windows pelo mundo afora. Quem teve a honra (ou não) de usar as primeiras versões desse sistema operacional, a 3.11, por exemplo, com certeza já deu um “reset” várias vezes, se bobear, no mesmo dia.



O “reset” é quando a máquina parava de vez, sem chance alguma para o usuário salvar seu trabalho. A tela congelava, o mouse não se movia, nada podia ser feito, a não ser apertar o botão do “reset”. É a mesma coisa que desligar e religar a máquina logo em seguida, mas com a comodidade de apenas um toque. O ruim do reset é que todo o trabalho tinha que ser recomeçado, ainda mais se ele não fosse salvo, fora a perda de tempo. O bom, é que às vezes, era recomeçado de uma forma diferente, e melhor.



Hoje os computadores estão mais sofisticados e mais preparados para realizar cópias de segurança automáticas e evitar essa pane total. Se um aplicativo trava, ainda é possível continuar trabalhando, sem passar pelo pesadelo de ver a tela congelar e não poder fazer nada. Mas vamos comparar o “reset” com as finanças pessoais.



Eu adoraria ver o brasileiro dar um “reset” na maneira como ele trata o seu dinheiro. Entra ano, sai ano, muitas pessoas prometem controlar mais seus gastos, fazer uma reserva de emergência, poupar mais... Mas ao menor sinal de afrouxo no crédito, batemos recordes de consumo, recordes de aumento de preços e depois vem a ressaca da inflação por demanda e da inadimplência. As pessoas gastam por impulso, gastam CARO (um carro popular aqui equivale ao preço de um carro importado na Europa), isso sem falar na febre por equipamentos eletrônicos, onde a vontade de ter fala mais alto do que a razão do preço justo para aquele produto. Mas isso não importa. O que importa é que a parcela cabe no bolso. Isso sem falar no mercado imobiliário. O preço dos apartamentos explodindo e a demanda continua aquecida.



Será que ninguém pára pra pensar que temos as maiores taxas de juros do planeta? Que ao final do financiamento estamos pagando mais que 2 apartamentos? Em vários países do mundo, existem as “greves de consumo”. Se um produto está caro, as pessoas deixam de comprá-lo até que o preço volte a um patamar justo. Aqui no Brasil, basta colocar em mais parcelas que ele continua vendendo. É assim que funciona.



Como se não bastasse os impostos e as deficiências estruturais do país, temos a diferença das taxas de juros cobradas aqui e no resto do mundo e a falta de noção de preços dos consumidores. Os preços e os juros não baixam porque há demanda de crédito. E o governo, que não preparou o país para crescer junto com essa demanda, é obrigado a aumentar (ainda mais) as taxas de juros e apertar o crédito e o crescimento do Brasil. E assim caminha a nossa humanidade, perdendo a noção de valores e até mesmo do perigo, ao comprar bens em tantas parcelas, até o momento que sua vida “travar”, igual os computadores faziam antigamente. E aí, o estrago está feito. E posso garantir que apenas um “reset” não vai resolver. Nos termos tecnológicos, talvez “reinstalar o sistema” ou quem sabe “reformar a máquina”.

Então, não vai adiantar aumentar o salário mínimo, pois os preços vão aumentar. Não podemos ter taxas de crédito de países de primeiro mundo, pois nossa estrutura também não é de primeiro mundo. O que podemos fazer? Quem sabe dar um “reset” nas nossas finanças e dar mais valor ao nosso dinheiro?



Antonio De Julio* - Iniciou sua atuação na área de mercado de capitais em 2004, quando se tornou trader independente de ações e derivativos .Atualmente, além de investidor profissional, é consultor especializado em finanças pessoais, palestrante e coach. Investe seu tempo nas áreas de finanças pessoais, desenvolvimento pessoal, educação e empreendedorismo. É conselheiro da Associação Comercial de São Paulo (distrital Butantã) e um dos autores do livro Por Dentro da Bolsa de Valores. (editora Urbana). É um dos criadores do Moneyfit (www.moneyfit.com.br), método de desenvolvimento pessoal e financeiro.

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