Cassilândia, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

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15/12/2008 09:05

Artigo: É preciso reinventar a esquerda brasileira

Rogério Tenório de Moura

Lembro-me como se fosse hoje de quando tive, pela primeira vez, a noção da importância da política para a vida de todos nós, mesmo que de forma não muito clara. Tinha nove anos de idade e assistia atônito a comoção de milhares de populares na despedida ao meu avô, o ex-prefeito Joaquim Tenório Sobrinho.
Naturalmente eu sabia que ele já havia sido prefeito e outras coisas mais na política, porém não entendia exatamente a dimensão delas. É verdade que para mim aquele monte de gente rondando meu avô não era surpresa, aliás, era uma das coisas que mais me aborrecia em minhas visitas à casa dele, não tê-lo só para mim nunca! No entanto ver tanta gente tão diferente concorrendo por um instante ao lado de seu féretro era algo que eu não conseguia compreender. Para mim, antes de qualquer coisa, ele era o meu “vô Buco”, aquele senhor de andar fagueiro, gestos largos e fala arrastada que ia a minha casa todas as terças e quintas à tarde conversar com minha mãe, tirar um cochilo, tomar o lanche da tarde e brincar comigo.
Anos mais tarde, por meio de meu saudoso irmão, Job Filho, compreendi quem fora o homem público “Pernambuco”, a partir daí passei a ter um olhar mais contemplativo sobre a política. Instigado por meu irmão fiz parte da chapa encabeçada por ele ao grêmio estudantil do antigo CEC, hoje Hermelina Barbosa Leal. Passei a estudar correntes filosóficas, a ler sobre grandes personalidades da história política universal, a assistir quase que inerte às reuniões político partidárias de meu tio, o Luizinho, e a partir daí comecei a questionar todo o modelo de política que conhecia até então.
Esses questionamentos levaram-me a trilhar caminhos diferentes dos traçados por minha família. Em minha adolescência bradava estoicamente que eu era socialista trotskista. Veio abaixo o muro de Berlim, emergiu a Perestróica e junto com ela todas as mazelas do autoritarismo estatal, coisas que jurávamos ser apenas intriga da oposição tornaram-se irrefutáveis e deixaram todos os jovens socialistas de cabelo em pé.
A partir daí passei por um longo período de ostracismo político, meus heróis estavam todos mortos, até que li uma assertiva de JK, em uma biografia escrita pelo jornalista Cláudio Bojunga, que dizia que: quando percebemos uma vontade sincera nas palavras de nosso adversário político, ele deixa de ser o inimigo a ser vencido e passa a ser apenas o idealista que quer alcançar o mesmo bem público que você, mas traçando um caminho diferente.
Naturalmente uma visão não maniqueísta da política era uma novidade para mim, porém aquelas palavras, mesmo que pareçam insípidas para alguns, marcaram profundamente minha trajetória de vida. Aderi ao socialismo reformista ao mesmo tempo em que flertava com pensadores de direita. Voltei a fazer parte do movimento estudantil, após a faculdade entrei para movimentos sociais e hoje milito no sindicalismo; porém sem o mesmo ardor pueril de outrora.
Não que eu tenha me desiludido, na verdade creio que hoje vejo a política em sua real dimensão, com suas limitações e contradições intrínsecas a própria essência humana e, naturalmente estendidas à política partidária. Quem se desiludiu, na verdade, foi a esquerda de respeitosos cabelos brancos. São os líderes estudantis de duas ou três gerações antes da minha. Seus sonhos foram, um a um, sendo frustrados e traídos.
Primeiro veio o golpe militar, depois o famigerado AI-5, chamado por muitos de "golpe dentro do golpe". A guerrilha sucumbiu às Forças Armadas, nossos jovens intelectuais que trocaram os livros por armas se viram abandonados pela própria população pela qual caíram na clandestinidade.
O PT surgiu brilhando como a luz no fim do túnel para toda uma geração que ainda sonhava com a instauração do sistema socialista no Brasil. Um partido que, mesmo pregando o socialismo, conseguia arrebanhar cidadãos que galgavam as benesses do sistema capitalista! No entanto, foi só alcançar a maioridade via Palácio do Planalto que, paradoxalmente, a esquerda brasileira soterrou-se em um mar de entulhos ideológicos responsável pela sua derrota maior. Lula adotou fielmente a política econômica de seu antecessor, FHC. O PT se emporcalhou num lodaçal de denúncias de corrupção sem precedentes em toda a história de nosso país. Decretou-se às custas do sangue, suor e lágrimas de gerações a falência de um projeto legítimo de esquerda no Brasil.
Para os Dirceus, Silvinhos e Delúbios da vida parece não haver desilusão alguma, apenas um pragmatismo cínico: a ordenha da máquina pública justificada pela necessidade de apoio político, como se todo homem tivesse um valor monetário.
Diante do exposto, o que fica evidente é que independentemente da posição política apregoada, o único tipo de político da velha geração necessário é aquele capaz de orientar os mais jovens a reconhecer que um projeto de transformação do mundo não precisa ser necessariamente aquele do qual se fez parte; que, com efeito, um novo projeto não deve seguir os mesmos passos do antigo, posto já sabermos aonde resultaria, além de ser o mundo presente totalmente diferente daquele de outrora.
As novas gerações de políticos parecem enxergar o mundo de hoje só até a fila do caixa eletrônico (para sacarem os honorários), ao passo que a geração de outrora queria tomar de assalto o céu. Muitos tratam de justificar a sua resignação com o fracasso dos mais velhos.
Cabe à esquerda de cabelos brancos, que tanto me inspirou e me fez enxergar a política não como um caminho, mas como o único caminho, a trazer a rapaziada à realidade, fazê-los compreender que é preciso reinventar o mundo. É preciso dizer a eles que, sem essa esquerda fracassada, não haveria democracia, não haveria direitos trabalhistas e que, se dependermos do medo deles de fracassar, muito em breve não restará direito algum. É preciso um toque divino que transforme nossa esquerda falida e desacreditada numa Fênix.

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

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