Cassilândia, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

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29/11/2007 08:07

Artigo de Rogério Tenório de Moura sobre a linguagem

Rogério Tenório de Moura*

A LINGUAGEM COMO VEÍCULO E PRODUTO DA CULTURA

Parece difícil conceber o primeiro homem sozinho no universo, o ser humano sem se relacionar, sem ensinar e aprender e é nessa dimensão que a linguagem pode ser compreendida como um bem universal para sobrevivência e crescimento pessoal. Ela age sobre e com os indivíduos tornando-nos diferentes dos animais, pois possibilita ao homem projetar suas ações em sua mente antes de realizá-las, assim criamos e incorporamos valores que orientam nossas ações diante do restante da natureza e dos outros homens.
A linguagem, portanto, é um instrumento vital ao processo de socialização do conhecimento elaborado, pois é, concomitantemente, o veículo que nos propicia compartilhar e preservar tal cultura e por outro lado o principal produto dessa mesma cultura.
Podemos, portanto, compreender a cultura como a forma de manifestação de uma dada ideologia em uma certa comunidade. Não existem representações ideológicas senão materializadas na linguagem. Ela é o instrumento que permite que as representações ganhem materialidade, expressão e espaço. Quando um enunciador comunica algo, tem em vista agir no mundo. Ao exercer seu fazer informativo, produz um sentido com a finalidade de influir sobre os outros. Portanto torna-se ainda mais importante entendermos a linguagem como um ato essencialmente político e arbitrário, logo mensageira de certas ideologias que visam agir no mundo, seja para retificar o que aí está, seja para ratificar.
Segundo Bourdieu “o poder da palavra é o poder de mobilizar a autoridade acumulada pelo falante e concentrá-la num ato lingüístico”. Exemplos claros disso são os discursos políticos, os sermões na igreja, aulas...
Segundo Marx, pode-se conceituar ideologia como a ligação entre o conhecimento e o interesse, entre o pensamento e suas raízes, suas origens, manifestas a partir de um ato lingüístico. Portanto toda ideologia tem suas raízes econômicas, políticas e sociais, tal qual a linguagem.
E é a partir daí que nasce a dualidade do ato lingüístico, pois é o uso da língua na escola que evidencia mais claramente as diferenças entre grupos sociais e que gera sucesso, admiração; mas também discriminações e fracassos: o uso, pelos alunos provenientes das camadas populares, de variantes lingüísticas sociais e escolarmente estigmatizadas, provoca preconceitos lingüísticos e eleva as dificuldades de aprendizagem, já que a escola usa e quer ver usada a variante-padrão, socialmente prestigiada. Assim surgiu a ideologia do déficit lingüístico nos Estados Unidos, durante a década de sessenta; de lá expandiu-se para países da Europa e da América Latina, entre eles o Brasil.
Um artigo, de Willian Raspberry - publicado em um livro da CCLS Publishing House, discursa a respeito de um projeto que forçaria as crianças negras a aprender o inglês padrão; a justificativa para a aprovação de tal projeto é que o Black English não passa de um subdialeto, que o objetivo é fazer com que as crianças tenham a habilidade de mudar de “língua” em diferentes situações.
É claro que sabemos que isso não passa de desculpa, a verdade é que para a maioria dos pais “brancos” ver seus filhos falando um dialeto “de negros” é uma experiência que não queriam ter, assim, se as crianças negras tivessem acesso ao inglês-padrão, pelo menos na escola, falariam esse inglês e não o Black English.
Segundo o sociólogo americano Michael Apple , razões sociopolíticas explicam o surgimento da ideologia do déficit lingüístico nos estados Unidos e sua aceitação em outras sociedade capitalistas. Por volta do início dos anos sessenta do século XX, a luta contra a desigualdade econômica acentuou-se nos Estados Unidos; nessa época cerca de dois quintos da população norte-americana – 77 milhões de pessoas – viviam em estado de pobreza crônica. Essa população socioeconomicamente desfavorecida era constituída predominantemente pelas minorias étnicas – negros, porto-riquenhos e chicanos – que sofriam um intenso processo de segregação e de marginalização social e econômica.
Discriminadas no mercado de trabalho (devido à alta taxa de desemprego), e vendo suas crianças e jovens discriminadas pelo sistema de ensino, as minorias étnicas começaram a reivindicar a “igualdade de oportunidades”, lema da democracia liberal de que o país tanto se orgulhava. Sem colocar em discussão a estrutura capitalista da sociedade, buscaram-se fora dela causas que explicassem a marginalização dos pobres, motor das insatisfações, e tentaram-se soluções que atacassem as causas apontadas.
Buscou-se analisar psicologicamente o problema das dificuldades de aprendizagem e do fracasso escolar das crianças pobres. Dessa análise nasceu a teoria do déficit lingüístico. Esta teoria afirma que as crianças das camadas populares chegam à escola com uma linguagem deficiente, que as impede de obter sucesso nas atividades e conseqüentemente na aprendizagem: seu vocabulário é pobre, não sabem o nome dos objetos comuns, usam frases incompletas, curtas, monossilábicas; sua sintaxe é confusa e inadequada à expressão do pensamento lógico, cometem erros de concordância, de regência, de pronúncia; comunicam-se muito mais através de recursos não-verbais. Em síntese: são crianças deficitárias lingüisticamente.
A partir desse pressuposto, concluem que as deficiências lingüísticas da criança desfavorecida são também cognitivas, porque a “pobreza” de sua linguagem, inadequada como veículo de pensamento lógico e formal, é obstáculo ao seu desenvolvimento cognitivo.
Na verdade, porém, o que houve foi a descaracterização dessas crianças por meio da aplicação de testes, realização de entrevistas, observação do comportamento escolar. Como esses estudos partiam sempre de um modelo implícito ideal de comportamento em comparação com o qual a criança pobre era avaliada – o comportamento da classe dominante, social e economicamente privilegiada, os resultados apresentaram a criança como portadora de carências e deficiências, das quais as principais são perceptivas e motoras, resultado de um déficit lingüístico.
A ideologia da deficiência lingüística veio ocultar a verdadeira causa da discriminação: a desigual distribuição da riqueza numa sociedade capitalista. As falhas são, assim, da criança, de sua família, de seu contexto cultural; a inadequação está na criança, não na sociedade nem na escola que a excluem.

Rogério Tenório de Moura*
é licenciado em Letras pela UEMS,
especialista em Didática Geral e em
Psicopedagogia pelas FIC.

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