Cassilândia, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

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01/09/2008 17:05

Artigo: A linguagem à serviço da educação classista

*Rogério Tenório de Moura

Não existem representações ideológicas senão materializadas na linguagem. Por isso a linguagem é o instrumento que permite que as representações ganhem materialidade, expressão e espaço.
Quando um enunciador comunica algo, tem em vista agir no mundo. Ao exercer seu fazer informativo, produz um sentido com a finalidade de influir sobre os outros.
Quando um enunciador reproduz em seu discurso elementos da formação discursiva dominante, de certa forma, contribui para reforçar as estruturas de dominação. Se utiliza-se de outras formações discursivas, ajuda a colocar em xeque as estruturas sociais. No entanto, pode-se estar em oposição às estruturas econômico-sociais de uma maneira reacionária, ou seja sonhando fazer voltar a um mundo que não mais existe, ou de uma maneira progressista, desejando criar um mundo novo. Sem pretender que o discurso possa mudar o mundo, pode-se dizer que a linguagem pode ser instrumento de libertação ou de opressão, de mudança ou de conservação.
O papel central da linguagem explica-se por sua fundamental importância no contexto cultural: a linguagem é, ao mesmo tempo, o principal produto da cultura, e é o principal instrumento para sua transmissão. Por isso, o confronto ou comparação entre culturas – que é, em essência, o que está presente tanto na ideologia da deficiência cultural quanto na ideologia das diferenças culturais – é, básica e primordialmente, um confronto ou comparação entre os usos da língua numa ou noutra cultura.
Em conseqüência, nesse quadro de confrontos culturais, a linguagem é também o fator de maior relevância nas explicações do fracasso escolar das camadas populares. É o uso da língua na escola que evidencia mais claramente as diferenças entre grupos sociais e que gera discriminações e fracasso: o uso, pelos alunos provenientes das camadas populares, de variantes lingüísticas social e escolarmente estigmatizadas provoca preconceitos lingüísticos eleva as dificuldades de aprendizagem, já que a escola usa e quer ver usada a variante-padrão socialmente prestigiada. Assim surgiu a ideologia da deficiência nos Estados Unidos, durante a década de sessenta; de lá expandiu-se, nessa mesma década, e posteriormente, na década seguinte, para países da Europa e da América Latina, entre estes o Brasil.
Razões sociopolíticas explicam o surgimento da ideologia da deficiência cultural nos estados Unidos e sua aceitação nas sociedades capitalistas periféricas.
Por volta do início dos anos sessenta, a luta contra a desigualdade econômica acentuou-se nos Estados Unidos; nessa época cerca de dois quintos da população norte-americana – 77 milhões de pessoas – viviam em estado de pobreza crônica. Essa população socioeconomicamente desfavorecida era constituída predominantemente pelas minorias étnicas – negros, porto-riquenhos, chicanos – que sofriam um intenso processo de segregação e de marginalização social e econômica. Discriminadas no mercado de trabalho (daí a alta taxa de desemprego), e vendo suas crianças e jovens discriminadas pelo sistema de ensino, as minorias étnicas começaram a reivindicar a “igualdade de oportunidades”, lema da democracia liberal de que o país tanto se orgulhava. Sem colocar em discussão a estrutura capitalista da sociedade, buscaram-se fora dela causas que explicassem a marginalização dos pobres, motor das insatisfações, e tentaram-se soluções que atacassem as causas apontadas.
Na área educacional buscou-se, inicialmente, analisar psicologicamente o problema das dificuldades de aprendizagem e do fracasso escolar das crianças pobres. Dessa análise nasceu a teoria da deficiência cultural. Esta teoria afirma que as crianças das camadas populares chegam à escola com uma linguagem deficiente, que as impede de obter sucesso nas atividades e conseqüentemente na aprendizagem: seu vocabulário é pobre, não sabem o nome dos objetos comuns, usam frases incompletas, curtas, monossilábicas; sua sintaxe é confusa e inadequada à expressão do pensamento lógico, cometem erros de concordância, de regência, de pronúncia; comunicam-se muito mais através de recursos não verbais. Em síntese: são crianças deficitárias lingüisticamente.
Pretende-se que esse déficit lingüístico esteja estreitamente relacionado com a capacidade intelectual da criança; o pressuposto é que as habilidades lingüísticas correspondem habilidades cognitivas. Apesar de as relações entre linguagem e pensamento constituírem, ainda questão polêmica não resolvida, os partidários do déficit lingüístico buscam apoio em psicólogos que apontam o desenvolvimento do pensamento e do raciocínio como decorrente do desenvolvimento da linguagem. A partir desse pressuposto, concluem que as deficiências lingüísticas da criança desfavorecida são também cognitivas, porque a “pobreza” de sua linguagem, inadequada como veículo de pensamento lógico e formal, é obstáculo ao seu desenvolvimento cognitivo. Suas dificuldades de aprendizagem devem-se, assim, concomitantemente, a deficiências lingüísticas e a deficiências cognitivas que daquelas decorrem.
Na verdade, porém, o que houve foi a descaracterização dessas crianças por meio da aplicação de testes, realização de entrevistas, observação do comportamento escolar. Como esses estudos partiam sempre de um modelo implícito ideal de comportamento em comparação com o qual a criança pobre era avaliada – o comportamento da classe dominante, social e economicamente privilegiada, os resultados apresentaram a criança como portadora de carências e deficiências, das quais as principais são perceptivas e motoras, resultado de um déficit lingüístico. Surgiu, assim, uma verdadeira teoria da deficiência cultural, isto é, responsabilizaram as variantes lingüísticas por gerar deficiências culturais. Obviamente essa teoria buscou por meios psicológicos, culpar a criança e seu contexto social dissimulando, assim, confortavelmente, as verdadeiras razões sócio-político-econômiocas da desigualdade.
A ideologia da deficiência lingüística veio apresentar uma confortável resposta a essa ameaça: ocultando a verdadeira causa da discriminação – a desigual distribuição da riqueza numa sociedade capitalista -, atribui a deficiências culturais e lingüísticas das crianças das camadas populares o seu fracasso na escola. As falhas são, assim, da criança, de sua família, de seu contexto cultural; a inadequação está na criança, não em um sistema escolar arcaico e preconceituoso.

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; presidente em exercício do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

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