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06/07/2009 08:11

Artigo: A Hora da Estrela

Nelson Valente*

Clarice Lispector morreu de câncer aos 56 anos de idade, no dia 9 de dezembro de 1977.

Aquele mesmo ano viu a publicação de sua última obra, A Hora da Estrela – aclamada pelos críticos como uma “alegoria regional” de extraordinária percepção e sensibilidade. Com mais de cem páginas, a narrativa de Macabéa, entretanto, pode ser lida em diferentes níveis, prestando-se a várias interpretações.

A sutil combinação ficcional e filosófica demonstra o raro talento de Lispector como escritora e sua perene influência na literatura contemporânea brasileira.

A fragmentada psicologia e as instáveis emoções dos humildes nordestinos já foram amplamente explorados pelos romancistas regionais dos anos 30, tais como: Graciliano Ramos e José Lins do Rego.

Alegria falhada, confusa e frustrada, tão pouco sou... inevitável Clarice Lispector.

Os aforismos entremeados no texto são sedutores: A verdade é sempre um contato interior e inexplicável; A vingança é coisa infernal; A cara é mais importante do que o corpo, porque a cara mostra o que a pessoa está sentindo, A Hora da Estrela traça uma comparação interessante entre ela como autora e a personagem criada, entre a razão e o instinto, entre conhecimento e inocência, entre poderes da imaginação e a realidade sem adornos.

O núcleo da narrativa focaliza-se nas desventuras e Macabéa, uma jovem humilde do interior nordestino, cujo futuro é determinado por sua feiúra e total anonimato. A linguagem e as vestes de Macabéa traem suas origens. Sua existência banal pode ser sumariada em poucas palavras: Macabéa é uma péssima datilógrafa, é virgem e seu refrigerante predileto – Coca-Cola.

O seu súbito desaparecimento embaixo das rodas de um Mercedes é tão absurdo e inevitável quanto todos os outros infortúnios que acontecem à infeliz marginal.

Do ponto de vista factual, a história de Macabéa sugere um esteriótipo de pesquisa sociológica. Lispector dá início à investigação das consequências psicológicas da pobrea. Na situação de Macabéa a fé é pouco justificável, mas parece o mais óbvio caminho, para evadir-se da lógica.

Voam lascas...faíscas...aços espelhados...esteriótipo impressionável...pura felicidade dos idiotas...

Mês dos véus de noiva flutuando em branco. Então vêm as inevitáveis comemorações com sua colega Glória – extrovertida,curvilínea e triunfalmente loura, Glória é a encarnação daquela profunda sensualidade perturbadora espreitando o corpo tuberculoso de Macabéa.

Olímpico de Jesus Moreira, da Paraíba, também sugere em estereótipo social. Ciente de seu status na sociedade carioca procura não ocultar este senso de inferioridade, vangloriando-se de um passado criminoso. A impressionável Macabéa, durante o curto período do seu romance, considera a aliança entre Olímpico (metalúrgico) e ela (datilógrafa) como “Um Casal de Classe”.

O desajeitado diálogo entre Olímpico e Macabéa, a meio caminho da narrativa, com suas rápidas mudanças entre a imponência deslocada a uma farsa não-intencional demonstraram a trágica herança dos nordestinos, quer permanecendo em sua terra ou buscando fortuna em cidades do Sul. Estão presas a ásperas condições sociais e seus sonhos poucas relações com a realidade.

Lispector não nega a relação com a personagem, confessando abertamente: “Através dessa jovem dei o meu grito de horror à vida”. A confrontação provoca um senso e náusea e de ultraje. O estranho fascínio exercido pela literatura de Clarice nasce de sua aptidão em “virar as coisas ao avesso”, revelando claramente o outro lado da realidade. Imaginação, poesia, a filosofia, une-se em perfeito equilíbrio.

Quando Lispector intervém na novela para lembrar ao leitor que “quem indaga é incompleto” está simplesmente reafirmando as aborrecidas dúvidas que rondam nossa existência. O ser humano que não costuma questionar seu estado mortal meramente vegeta e jamais transgredirá suas próprias limitações. Macabéa também, de modo confuso é tragada para dentro de um rico labirinto mental de enigmas não resolvidos. A autora vê em Macabéa o seu modo de buscar a iluminação.

Suas metáforas derivadas de parábolas, lendas e anedotórios são de efeito, porquanto sintáticas e engenhosamente construídas. A autora prefere o laconismo ao acúmulo. O trabalho de Lispector pode ser difundido como verdadeiro contemporâneo. Mestre da coerência verbal e psicológica examina a magia da invenção e generosamente compartilha seus segredos com o leitor.

As palavras têm de ser avaliadas, manipuladas, orquestradas em seu sentido secreto.

A própria pobreza transforma-se em novo critério de poder. Seu legado é compatível a sua riqueza terrena. O maravilhoso destino – predito por Madame Carlota acontece. Logo que Macabéa sai da Cartomante, é atropelada por um Mercedes amarelo dirigido por um belo estrangeiro que vai embora, deixando-a agonizante na sarjeta e meditando sobre o seu estranho destino.

A absurdidade de sua morte é inteiramente compatível com a existência que conheceu. A apoteose de Macabéa é deliberadamente vaga: “Ela é a iminência que há nos sinos que quase-quase badalam. A grandeza de cada um”. Metáfora astuta, enfatizando a supremacia do potencial sobre a força, da especulação sobre a certeza.

A meditação sempre sobrepuja a mera descrição nos trabalhos de Clarice Lispector. Personagens e situações são rapidamente esboçados em traços meramente essenciais.

A caracterização de Macabéa é centralizada na “delicada e vaga existência” da moça. A dúvida excede a certeza na análise lispectoriana da psique humana. Mesmo os aforismos no livro convidam à discussão e não à sua aprovação. Ele nos lembra do poder oculto nas palavras. A existência de Macabéa é mudada por palavras capazes de banir sua realidade: “O fruto da palavra” transforma-a numa mulher “grávida de fruto”.

No momento seguinte Lispector define A Hora da Estrela como uma obra “feita sem palavras... uma fotografia muda... um silêncio... uma pergunta”. Para Lispector o silêncio como a dor é fonte de eternas verdades.

Conclusão

Macabéa tem a inocência primitiva das heroínas de Jorge Amado em combinação com a desconcertante fraqueza das de Dalton Trevisan. Mas o “segredo inviolável” que seguia a odisseia da personagem de Lispector é único onde é inigualável. A transfiguração de Macabéa restaura nossa confiança... Hora da Estrela.



(*) é professor universitário, jornalista e escritor








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