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17/12/2017 15:05

Arlene lutou anos pela vida dos sonhos, até que o Alzheimer interrompeu tudo

Campo Grande News
Arlene Rosa, tem 65 anos e dona Angela Rosa, 88.(Foto: Paulo Francis)Arlene Rosa, tem 65 anos e dona Angela Rosa, 88.(Foto: Paulo Francis)

Arlene Rosa tem 65 anos e é filha de dona Angela Rosa, 88. A mãe viu a filha trabalhar muito para ter a vida dos sonhos e envelhecer com tranquilidade. Mas o tempo e o diagnóstico de Alzheimer, em 2015, fizeram com que os papéis na casa se invertessem.

A consciência de Angela passou a não fazer parte da rotina, enquanto Arlene custou a aceitar as limitações que vieram com a doença. "Hoje, por exemplo, fui procurar o meu adoçante e ela guardou na geladeira. O sal já procurei, mas até agora não encontrei na casa. É assim, diariamente", conta a filha.

Nos últimos dois anos, o declínio foi tamanho a ponto de se esquecer de Arlene, não lembrar onde mora e até confundir o filho com o marido, que já faleceu há 22 anos.

Por isso, a parede da sala virou o ponto de partida para as lembranças que vem e vão na cabeça de Angela. "Depois de um tempo, ela começou a falar que eu não era filha dela, então peguei uma foto antiga, mandei ampliar e coloquei na parede. Toda vez que ela olha, lembra de mim e assim fui fazendo com os outros filhos e netos, toda vez que ela esquece de alguém".

Mas quem olha o jeitinho de Arlene com a mãe, cheia de recursos para lidar com cada esquecimento repentino, não imagina que por muito tempo ela chorou quieta, em busca de respostas sobre uma doença que nunca teve conhecimento.

"Eu nem sabia direito o que era Alzheimer, também não me dei o trabalho de procurar sobre a doença ao longo da vida. Por isso, a descoberta foi tão difícil, uma dor forte. É uma vida inteira deixada para trás", narra ao lembrar das horas de trabalho dedicadas ao sonho de viver uma aposentadoria tranquila.

Arlene nasceu em Corumbá, mas casou e deu início à profissão em Campinas. De lá, viajou para boa parte do Brasil trabalhando em uma multinacional, até que seu primeiro contato com a praia deixou um gostinho de quero mais. "Eu sonhava em morar na praia e quando meu pai faleceu, acabei voltando para Aracaju, fazia parte de um coral e trabalhos voluntários na igreja. Morava em condomínio e tinha a vida que planejei por anos".

Mas em 2013, Angela sofreu uma queda e passou por cirurgia na cabeça. Depois disso, vieram os primeiros esquecimentos e a mudança nas atividades. "Ela não fazia as mesmas coisas. Não costurava e nem cozinhava direito. Foi aí que eu tive a ideia de levá-la para viver comigo".

Mas a decisão não agradou dona Angela que pedia insistentemente para voltar para casa. Depois de tantos pedidos, Arlene decidiu mudar-se para Campo Grande, na esperança de ver uma melhora no tratamento da mãe.

Mas as lembranças foram só diminuindo. "De vez em quando ela fala que precisa ir para casa porque o marido está lhe esperando. Mas papai já faleceu há 22 anos. Outras vezes ela sai na porta de casa e diz que não se lembra onde mora. E os vizinhos dizem: é só abrir o portão dona Angela. E por aí vai, são muitas situações que aos poucos foram mudando a rotina dela", conta.

No entanto, o maior desafio foi ganhar a confiança da mãe sobre ser vigiada 24 horas por dia. "É muito difícil para ela se acostumar com essa vigilância. Ela ainda acredita que pode fazer tudo sozinha. E o mais difícil é olhar e ver que eu preciso falar não para a minha própria mãe, sendo que na verdade, era eu que tinha obedecer ela".

Por esse motivo, toda vez que Angela fica agressiva com os cuidados da filha, Arlene só responde com amor. "Não tem outra solução. A gente vai se adaptando e incluindo ela em todas as rotinas da casa. Quando ela quer fazer um café, fico ao seu lado na cozinha. Na hora de lavar roupa, deixo ela estender. Assistimos televisão juntas e fazemos visitas aos vizinhos todos os dias".

Outro medida que acalmou a mãe, foi deixar a chave sempre por perto. "Toda vez que eu trancava a porta e escondia a chave, ela ficava nervosa. Por isso agora ela fica sempre pendurada na parede, pelo menos ali, ela se sente segura e acaba não pegando a chave. Mas também não posso descuidar, preciso estar olhando 24 horas por dia".

Dos 14 irmãos de dona Angela, 4 já estão com Alzheimer e alguns já faleceram. Mas vira e mexe, ela se recorda dos parentes como se ainda estivessem vivos. "Então eu fiz um caderninho com a ordem de nascimento de cada familiar e também a data da morte de alguns. Sempre olhamos juntas para ela não esquecer de quem já partiu".

A mãe sempre foi uma mulher ativa. Aprendeu a trabalhar na infância, ajudou a cuidar dos irmãos, foi carpinteira, diarista, costureira e até ajudante de pedreiro ao lado do pai. Na vida adulta formou-se Técnico de Enfermagem, aos 55 anos, uma de suas maiores alegria na vida, além de dançar como ninguém. "Fui eu que ensinei todos os filhos a ler dentro de casa", lembra dona Angela os detalhes que o Alzheimer ainda não levou da memória. E a filha acrescenta. "É verdade, todos nós chegamos na escola já sabendo ler e escrever graças a ela".

Mas dos quatro filhos que teve, hoje, só Arlene cuida 24 horas da mãe. "Um irmão mora fora da cidade, outro aqui na esquina de casa, mas que só agora está se aposentando. Enquanto a outra mora no Cophatrabalho, mas é uma tratante que sempre fala que vai nos visitar, mas neste mês só apareceu uma vez".

Por isso Arlene passou a fazer parte da reunião da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer), em Campo Grande, em busca de respostas. Mas no caminho, encontrou apoio e descobriu que não está sozinha. "Ali cada um abre um pouquinho do coração para falar dessa rotina diferente. Muitas vezes incompreendida. E aos poucos a gente vai encontrando respostas para o presente e deixando de lado a preocupação com o futuro".

As reuniões da Abraz servem de apoio para parentes e cuidadores e acontece toda segunda terça-feira do mês, às 19h, no salão da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, gratuitamente. O endereço é: Avenida Mato Grosso, 3280, Santa Fé.

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