Cassilândia, Quarta-feira, 29 de Março de 2017

Últimas Notícias

15/09/2014 10:14

Aos 55 anos, uma das prostitutas há mais tempo na ativa hoje só investe no batom

Campo Grande News
Bar, dentro da antiga rodoviária, é o ponto de Rose há mais de 20 anos. (Foto: Marcelo Calazans)Bar, dentro da antiga rodoviária, é o "ponto" de Rose há mais de 20 anos. (Foto: Marcelo Calazans)

O “nome de guerra” é Rosa, mas Rosângela dos Santos não tem vergonha e nem medo de mostrar o rosto e de dizer o que faz para ganhar a vida. Solteira, mãe, avó e “garota” de programa aos 55 anos, ela se orgulha da própria história: “sou uma mulher de sorte. Me prostituo, mas nunca roubei, nunca fui presa, não tenho passagem pela polícia e nunca usei drogas”, diz, a quem quiser ouvir.

Rosa é, também, uma mulher de garra, forte e sofrida o suficiente para enfrentar os obstáculos de cabeça erguida e não se importar com comentários maldosos e com a cobrança, sempre cruel, da sociedade. Faz programa, sim, mas não deve explicações a ninguém. Paga impostos como qualquer cidadão. Contribui, inclusive, com a Previdência Social porque quer, pelo menos, viver uma vida mais tranquila quando chegar a hora de se aposentar. “Falta só dois anos. Pago há 13”, revela.

Hoje ela vive desse jeito, tem o amparo dos filhos, mas, se pudesse escolher e voltar no tempo, seria advogada, promotora de justiça ou médica cardiologista. “Mas isso é um sonho impossível”, lamenta, ao lembrar que tem apenas a 2ª série e mal sabe ler e escrever.

O Lado B foi ao encontro de Rosângela em seu local de trabalho, em um bar que fica dentro da antiga rodoviária de Campo Grande, região central da cidade. A rotina da mulher, que diz ser uma das prostitutas mais velhas da área, é corrida. “Posso daqui uma hora. Estou saindo para um programa”, avisou, quando recebeu o pedido de entrevista por telefone.

De volta ao “ponto”, ela tirou alguns minutos para conversar com a reportagem e, sem qualquer receio, voltou ao passado para contar a própria história.

Passado difícil - Filha caçula de 22 irmãos, sendo 12 homens e 10 mulheres, Rose nasceu em Guaxupé, interior de Minas Gerais. Mudou-se para Mato Grosso do Sul, com os pais - que vieram em busca de melhores condições de vida e de oportunidades -, aos 10 anos de idade. Não aproveitou a infância, muito menos a adolescência.

Com 12 anos, engravidou. “Fui estuprada. Estava indo par a escola à tarde”. Aos 13, virou mãe. Os pais, conta, lhe tiraram da escola e lhe expulsaram de casa. Rose foi morar sozinha, na rua. Sozinha, movida pelo instinto de sobrevivência, aprendeu a mendigar, para alimentar a ela e ao filho.

Andando de rua em rua, encontrou, um dia, ajuda de um desconhecido. Era um dentista, relembra, que lhe deu teto. “Ele me viu pedindo e resolveu ajudar. Alugou duas peças, comprou móveis, enxoval. Fez o básico para mim”.

Fez o básico, mas a teve como mulher na cama. “Foi meu primeiro cliente. Tinha 14 anos”, conta. Até o bebê completar 6 meses, afirma, este homem, casado, lhe deu amparo, dormiu com ela, a levou para trabalhar como faxineira em seu consultório e, depois, anunciou, solenemente, que Rose já poderia andar com as próprias pernas.

O início - Decidido, a levou para rua, para a Avenida Costa e Silva. Mostrou a ela o caminho da prostituição. A menina enxergou, aceitou e, por 15 anos, viveu a rotina de todas as noites sair para fazer programa, enquanto, durante dia, cuidava da casa e dos filhos, mais três, que ela deu a luz em uma década.

Cansada, decidiu abandonar a avenida, mas não a vida de garota de programa. Passou a frequentar então a antiga rodoviária. Na época, há 20 anos, o local estava em plena movimentação e era um dos espaços mais visitados por campo-grandenses e turistas.

Se falando em prostituição, a área era, portanto, um dos pontos mais caros da Capital. O cinema pornô, que hoje não funciona mais, oferecia vantagem para o negócio das “meninas” e servia como chamariz.

Rose pegou a “boa fase”. Em forma, com tudo em cima, pesando 48 quilos, lucrou bastante, atendendo uma média de 10 a 15 clientes por dia. “Já cobrei R$ 200,00 por programa”. Mas quando o valor era esse, a imagem dela também era outra. “Usava salto, shorts, passava maquiagem. Era um violãozinho, de ir no salão mesmo”.

A vida agora e o futuro - Hoje, 35 quilos acima do peso, Rose cobra R$ 50,00, atende 2, 3 homens por dia, mas não costuma fazer mais nem a sobrancelha. Passa protetor solar para não piorar as manchas no rosto e porque está usando ácido à noite, mas, para trabalhar, usa, no máximo, um batom vermelho.

“Não me cuido tanto. Coloco calça colada, pulseira e meu relógio. Só. Resolvi largar mão. A gente vai chegando em uma idade e se desleixa”, admite. Alérgica à maquiagem, ela diz que cansou de ficar espirrando e com os olhos lacrimejando.

Rose não se arruma mais como antes, mas se orgulha do passado, do dinheiro que adquiriu trabalhando como garota de programa e da força que teve para criar os quatro filhos. Em casa, a profissão dela sempre ficou muito clara.

“Quando perguntavam como o que eu trabalhava eu respondia: 'a mamãe trabalha namorando''. E eles, garante, entendiam. Entendem, na verdade, até hoje, afirma. Apoiam a decisão dela de continuar nessa vida e dizem que, se algum dia Rose resolver parar, eles “dão um jeito” de arcar com as despesas. “Mas, se depender de mim, acho que vou até uns 65 anos”, diz a mulher, hoje órfã de pai e mãe.

Envie seu Comentário
Os comentários feitos no Cassilândia News são moderados. Antes de escrever, observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. Não serão publicados comentários nas seguintes situações:

1. Sem o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail válido. Codinomes não serão aceitos.
2. Que não tenham relação clara com o conteúdo noticiado.
3. Que tenham teor calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade.
4. Que tenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas.
5. Que contenham linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica.
6. Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertencentes a correntes de qualquer espécie.
7. Que tenham característica de prática de spam.

O Cassilândia News não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.
Restamcaracteres.
 
imagem transparente
Últimas notícias
Scroller Top
Quarta, 29 de Março de 2017
Terça, 28 de Março de 2017
21:41
Loteria
Scroller Bottom

  • Idalus Internet Solutions
  • TOP DataCenter e Internet
  • Disponível na AppStore
  • Disponível no Google Play
Rua Sebastião Leal, 845, CEP: 79.540-000, Cassilândia (MS)