Cassilândia, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

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27/06/2007 09:57

Alcides Silva: risco de vida ou risco de morte?

Alcides Silva

Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Risco de vida ou risco de morte

Pergunta-me Carmozina Aparecida da Silveira (casilveira@fazenda.sp.gov.br), através do site da Jovem Sul News, de Chapadão do Sul (que, aliás, me honra com a publicação semanal destes meus artiguetes), se o correto é risco de vida ou risco de morte quando se pretende identificar uma situação de perigo.
O meu inseparável (e insuperável) Aurélio - Século XXI me informa que risco é o “perigo ou possibilidade de perigo. Uma situação em que há probabilidades mais ou menos previsíveis de perda ou ganho com, p. ex., num jogo de azar, ou numa decisão de investimento”
O risco é sempre um contratempo, uma dificuldade, uma perspectiva de perda, quase sempre no sentido de coisa ruim: risco de guerra, risco de câmbio, risco de doença, risco do jogo, risco de ficar retido no aeroporto sem a expectativa de relaxar e gozar, risco de uma aventura romântica com pesada pensão alimentícia, como a de Renan Calheiros. Corre-se o risco de morrer sufocado, de ser roubado, de ser traído ou de se eleger um demagogo ou corrupto, do tipo ‘novo rei do gado’.
A vida é que corre o risco, jamais a morte. Por outro lado, não podemos esquecer que a expressão “risco de vida”, de priscas eras, tem uma longa e fulgurante carreira no nosso falar.
A língua é dinâmica e está em permanente processo de mudança. Não deve ser encarada unicamente sob o enfoque do certo ou errado e nem submetida à lógica formal do conhecimento verdadeiro. Assim não se pode a priori, com laivo de verdade absoluta, afirmar que o emprego da expressão risco de vida ao invés de risco de morte esteja incorreto, ou vice-versa.
O Dicionário Houaiss traz exemplos do emprego de "risco" com o sentido de "probabilidade de perigo" ("risco de vida", "risco de infecção", "risco de contaminação"). O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, edição de 2001, apresenta "risco de vida" e "perigo iminente de morte" como expressões equivalentes.
O exemplo em frente foi colhido na Bíblia: "Ainda que cometesse mentira a risco da minha vida, nem por isso coisa nenhuma se esconderia ao rei; e tu mesmo te oporias" – (2 Samuel 18:13 – tradução Almeida, edição de 1994).
Conheço duas explicações para o emprego de risco de vida ao invés de risco de morte: uma, é forma elíptica Correr o risco de [perder a] vida. ‘Elipse’ é a omissão deliberada de palavra numa frase; outra, é o eufemismo, isto é, a substituição de uma palavra muito forte (morte) por outra mais suave (vida).
A maioria dos jornais, de uns tempos para cá, está preferindo a expressão risco de morte. São os modismos da imprensa, como, por exemplo, o empregar os demonstrativos “esse” ou “desse” quando referentes a coisas presentes, a coisas de Lula, seguidas como regra gramatical invulnerável.
Antigamente – e isso não faz muito tempo, não, – o comum era o emprego da frase risco de vida. Essa ambigüidade, porém, não é exclusiva de nossa língua portuguesa. Risco de vida e risco de morte também se digladiam e vicejam no inglês (risk of life, risk of death), no espanhol (riesgo de vida, riesgo de muerte) e no francês (risque de vie, risque de mort).

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