Cassilândia, Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

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30/06/2011 17:56

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Trifronteirano

Porque o “Aurélio Século XXI” traz o adjetivo ‘trifronteirano’ para designar aquele ou aquilo que é, pertence ou se origina de Três Fronteiras, pedem de novo minha opinião sobre a formação desse adjetivo pátrio (ou locativo), assim como dos derivados de Santa Fé do Sul, Urânia, Jales, Santana da Ponte Pensa, Santa Rita D’Oeste, Santa Clara D’Oeste, Nova Canaã Paulista e Palmeira D’Oeste.
Faz algum tempo, os jornais noticiaram que um grupo de cidadãos de origem judaica, a maioria residente em Campinas, pleitearam o indiciamento dos conselhos editoriais dos dicionários Aurélio e Houaiss, porque uma das acepções do vocábulo “judeu” era considerada insultuosa à comunidade israelita. No Aurélio, judeu é o “indivíduo avaro, usurário”; no Houaiss, o “nômade, cigano; pessoa usurária, avarenta”. Na representação criminal dirigida ao Ministério Público Federal, a advogada Tatiana Ferreira Paschoalli pediu que as editoras fossem forçadas a excluir os conceitos injuriosos dados à palavra judeu, porque o conteúdo do dicionário tem “uma autoridade incontestável e inquestionável, com força de ser reconhecido como expressão da verdade”.
Os dicionários, porém, não criam palavras; registram-nas com base no uso que se faz ou fizeram delas, inclusive no sentido depreciativo: baiano (fanfarrão, pachola, dado a contar vantagens, mulato), ceará (charque, pedaço de carne ruim), espanhol (teimoso), galego (forasteiro atrevido), polaca (prostituta, mulher da vida), turco (mascate, ridico, unha-de-fome, pão-duro) são expressões comuns entre o povo e encontradiças em quase todos os léxicos brasileiros. Nenhuma foi gerada pelo dicionarista, mas pelo falar contínuo do povo.
Voltemos, porém, ao trifronteirano. Formam-se os adjetivos ditos pátrios (ou locativos) acrescentando-se ao substantivo um sufixo que tenha o sentido de origem ou procedência: ano (cuiabano, tricordiano), ão (alemão, coimbrão), eiro (brasileiro, mineiro), enho (portenho, estremenho> Estremadura, Portugal), eno (chileno, terreno), ense (jalesense, fernandopolense, votuporanguense, tribarrense), ês (norueguês, português), eu (europeu, judeu), ino (argentino, triangulino> Triângulo Mineiro) e ita (israelita, semita).
Quem cria as palavras não é a gramática e nem o dicionário: é o povo. A gramática expõe as regras ou normas da língua-padrão; os dicionários consignam os vocábulos da língua. Língua é o meio de expressão de indivíduos que vivem em sociedade.
O hífen não é um fato linguístico (próprio da língua), mas uma convenção ortográfica, um acordo, a única parte da língua que pode ser estabelecida por lei. Aliás, a ortografia, isto é, a maneira correta como se escrevem as palavras de uma língua, não é gramática. Erro de ortografia não é erro de português. É infração a uma norma ou a um preceito.
O Aurélio Século XXI informa que quem nasce em Artur Nogueira é nogueirense; em Barreira (CE) ou em Barreiras (BA), barreirense; em Limeira, limeirense; em Palmeira d’Oeste, palmeirense; em Pitangueras, pitangueirense; em Ribeira, ribeirense; em Roseira, roseirense; trimariense, em Três Marias (MG), trindadense, em Trindade (GO), trirranchense, em Três Ranchos (GO), triunfense, em Triunfo (PB, PE e RS) e triunfano, em Triunfo (RJ), porque assim é o falar dos habitantes dessas cidades.
Quem nasce em Três Fronteiras, diz o povo de lá, é trifronteirense e não trifronteirano. Portanto, trifronteirense é o que vale. A opção do dicionário não deve ter sido precedida da necessária pesquisa. Para o provindo da cidade mineira de Jeceaba, o Aurélio anotou o adjetivo jeceabense e deu-lhe como sinônimo jeceabano. Não usou da mesma generosidade para com Três Fronteiras.
O sufixo ense aparece em mais de 95% dos adjetivos pátrios, assim é uraniense, o originário de Urânia; santanense, o de Santana da Ponte Pensa; saletense, o de Santa Salete; rubineiense, o de Rubineia; santaclarense, o de Santa Clara d’Oeste; santarritense, o de Santa Rita d’Oeste; canaense, o de Nova Canaã Paulista e santafessulense, o de Santa Fé do Sul. A forma da grafia santafessulense sem hífens já a expliquei aqui mesmo nesta coluna em artiguete publicado há uns dez anos. No meu entender, aplica-se também aos adjetivos santaclarense e santarritense. caiobarbosantn@yahoo.com.br

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