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25/09/2008 15:24

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Língua portuguesa, inculta e bela
Alcides Silva
“Vota Brasil”
A televisão nos últimos dias está nos concitando a votarmos conscientemente
e escolhermos os melhores candidatos no próximo dia 5. “Campanha institucional”
como é chamada a publicidade desse tipo.
Antes, em outra campanha publicitária, mostrou-nos o cantor Gabriel, o Pensador, com meia dúzia de palitos de fósforos, tentando nos ensinar a atravessar as ruas. Teve um tempo em que a mais que bela Ana Paula Arósio sugeria-nos a utilização dos serviços de telefonia interurbana de determinada empresa. Outros apelos, para ficarmos só nos mais recentes, foram para que fizéssemos nossas transações em determinada instituição bancária e para que entrássemos em clima de campeonato mundial de futebol.
Sei que para os publicitários, a criatividade deve estar acima da linguagem formal, do padrão culto, do certo (bem) ou do errado (mal) e que a sonoridade de uma frase muitas vezes justifica o atropelo gramatical. A finalidade é incutir no ouvinte ou leitor, destinatário da propaganda, a mensagem do anúncio. Esse objetivo, porém, justificaria o erro matemático, a ausência de lógica ou a falta de concatenação das idéias?
Nem sempre, porém, a mensagem publicitária foi de vocabulário mediocrizado: “Melhoral, melhoral, é melhor e não faz mal!” é um exemplo típico dos tempos em que a correção do texto era um dos pressupostos da propaganda.
Hoje, em nome de uma tal de globalização (banalização, diríamos melhor), a sintaxe que se arda!
A solicitação de agora é “Vota Brasil”. Gabriel, dito Pensador, há pouco tempo apelava: “Pedestre, atravessa na faixa”; Ana Paula Arósio convidava “Faz um 21”; o banco chamava, “Vem pra Caixa você também”; e na época da Copa do Mundo o locutor conclamava o telespectador, com o seu bordão “Se liga Brasil” a se interessar pelos jogos prestes a se realizarem.
Como está na frase, “Vota Brasil” é uma forma imperativa na terceira pessoa do singular, como também o são “atravessa na faixa”, “Faz um 21”, “Vem pra Caixa” e “Se liga”, pois os verbos (‘votar’, ‘atravessar’, ‘fazer’, ‘vir’ e ‘ligar’) estão exortando o ouvinte ou leitor a cumprir a respectiva ação por eles indicada. Só que ao invés de empregar o verbo no modo imperativo, tais frases o trazem no indicativo.
A terceira pessoa do imperativo deriva de igual pessoa do presente do subjuntivo; que ele vote; que ele atravesse; que ele faça; que ele venha; que ele ligue. Então o correto seria: “Vote Brasil”,“Pedestre, atravesse na faixa”, “Faça um 21”, “ Venha para a Caixa” e “Se ligue Brasil”.
É sabido que o verbo mostra as diferentes maneiras como um fato se realiza: o indicativo (exprime um fato certo, positivo: “Ele vota”); o imperativo (enuncia uma ordem, um conselho ou um pedido “Vote corretamente”).; e o subjuntivo expressa possibilidade, suposição, fato possível ou hipotético, ou, ainda, duvidoso: “Tomara que ele vote certo”.
Claro está que a mensagem da Justiça Eleitoral é um chamamento ao
exercício correto e livre do voto. Então o verbo, pelo padrão aceito da linguagem,
deverá estar no imperativo: vote. Não há outra norma ou regra gramatical diferente.

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