Cassilândia, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

Últimas Notícias

25/04/2008 07:34

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Estropiado

Particípio do verbo estropiar, o termo que encima estes comentários, tem ligação direta com o italiano, onde existe o verbo stroppiare, mas não o tem com o estropear da língua espanhola. De se lembrar, novamente, que a língua e a linguagem são um processo em permanente atualização, até porque o homem é um ser extremamente ativo.
Na origem stroppiare significava ‘fatigar muito; mutilar’, e não tinha nada a ver com as exaustas tropas eqüinas que participavam, mundo afora, das intermináveis excursões das guerras de conquista. Nem com o tropear estrepitoso das cavalgadas festivas.
Já estropear, derivado do espanhol tropel, tem na origem o significado de rebanho, tropa. Estropear é fazer tropel, isto é, ruído produzido pelo rebanho agitado ou pela tropeada das cavalarias. É o estrépito de pés. Hoje, é sinônimo de aleijar, mutilar, deformar. E também de abastardar, adulterar, alterar, corromper, decompor, deformar, degenerar, depravar, desafeiçoar, desarranjar, desfigurar, desvirtuar, deteriorar, deturpar, distorcer, envenenar, estragar, falsar, falsear, falsificar, lanhar, malsinar, modificar, perverter, torcer, transtornar, viciar e outros mais.
‘Navegar é preciso’, poetava Fernando Pessoa. Vou viajar pela história, aventurando-me a uma associação de idéias.
Há um termo latino, strophium (derivado do grego strophos, ‘corda’) que era o nome dado a uma faixa de pano ou de fibras vegetais que apertava e segurava os seios das mulheres, oprimindo-os. Aliás, nas gravuras antigas, as mulheres quase não têm representação de seus seios.
O strophium foi o avô do espartilho, um colete justo que, dos quadris até abaixo dos seios, comprimia o corpo da mulher para dar-lhe elegância, segundo o padrão de beleza da época. Verdadeiro instrumento de tortura feminino que chegava a mutilar, o espartilho, feito de esparto, do latim spartu, que era uma planta de fibra resistente usada também para fazer corda e esteiras, foi o símbolo da denominação da mulher porque tolhia-lhe os movimentos. Como aquelas fibras de esparto, com o uso, pudessem ceder, os espartilhos passaram a ser feitos de tecidos resistentes e grossos, providos de barbatanas de baleia ou de fitas de aço, com ilhoses por onde passava longo cadarço para apertar ao máximo o abdome e a cintura da mulher, - cintura de pilão - chegando a causar-lhe hematomas, dermatoses, feridas, infecções e até a morte. Aliás, do grego stróphos, 'corda', surgiu estrúfulo, nome de uma doença de pele muito comum nas crianças.
A Revolução Francesa o aboliu, por ser um símbolo da aristocracia então deposta.
No início do século XIX, o espartilho voltou à moda, já agora de tamanho bem menor, sem o suplício das barbatanas de baleia, mas ainda incômodo. Sua principal função era a de realçar os seios e proporcionar a sensação de benéficas abundância e opulência..
Os tempos modernos substituíram aquelas máquinas de suplício pelo suave sutiã, que, no encantamento das lingeries sustentavam e, agora, sob o império do silicone, enfeitam os seios, exibindo-os generosamente.
Não sei – e nem encontrei quem comigo compartilhasse da indução -, mas dá vontade de dizer que estropiado também foi no passado um dos qualificativos dados aos seios mutilados e reprimidos pelo strophium romano!

Envie seu Comentário
Os comentários feitos no Cassilândia News são moderados. Antes de escrever, observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. Não serão publicados comentários nas seguintes situações:

1. Sem o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail válido. Codinomes não serão aceitos.
2. Que não tenham relação clara com o conteúdo noticiado.
3. Que tenham teor calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade.
4. Que tenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas.
5. Que contenham linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica.
6. Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertencentes a correntes de qualquer espécie.
7. Que tenham característica de prática de spam.

O Cassilândia News não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.
Restamcaracteres.
 
Últimas notícias
Scroller Top
Sábado, 10 de Dezembro de 2016
Sexta, 09 de Dezembro de 2016
Quinta, 08 de Dezembro de 2016
Scroller Bottom

  • Idalus Internet Solutions
  • TOP DataCenter e Internet
  • Disponível na AppStore
  • Disponível no Google Play
Rua Sebastião Leal, 845, CEP: 79.540-000, Cassilândia (MS)