Cassilândia, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

Últimas Notícias

22/06/2007 15:22

Alcides Silva - Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Sequer

Volta e meia leitores me escrevem para condenar o uso do advérbio “sequer” com valor negativo. Acabo de receber de Clayton Ávila Alves a seguinte mensagem, que aqui transcrevo preservando-lhe a grafia original:
Mais uma vez venho abordar o aspecto referente ao termo SEQUER e aos exageros da negativa.
Extraio do texto entitulado “Juntos ou separados”, de Alcides Silva, uma frase pela qual fico indignado, pela contrariedade do significado SEQUER:
“Tampouco é advérbio e só se emprega quando puder ser substituído por também não, ou nem sequer, ou, ainda, por sequer: Não apareceu tampouco se justificou.”
É um equívoco afirmar que TAMPOUCO pode ser SEQUER, que significa AO MENOS, PELO MENOS, NO MÍNIMO.
Adquiriu-se o costume de entender que o advérbio sequer, que não é de negação, fosse colocado como tal. Se assim o fosse a expressão “nem sequer” seria redundante, como dizer “nem nem”, da mesma forma que já se faz a redundância em “nem tampouco”, quando conectivo de orações ou complementos. Há de se entender que “nem sequer” é o mesmo que “nem ao menos” ou “nem no mínimo” ou “nem pelo menos”..
Exemplifico o que é correto e o incorreto: O Correto: “Não leu jornal nem sequer assistiu televisão”. O Incorreto: “Não leu jornal nem tampouco assistiu televisão”.
Assim, é inadmissível o exagero pós-reforço da negativa, ou a duplicidade de reforço com termos de mesmo significado da negativa, incorreto tanto gramatical quando dialeticamente, por exemplo:
“Não vai nem sequer...” - ao invés de “não vai sequer...”; “Nunca sequer nem...” - ao invés de “nunca sequer...”; “Ninguém sequer nem...” - ao invés de “ninguém sequer...”;(nem (reforço) = sequer; ao menos); “Não vou nem falar nada” (não vou nem ‘nem’ uma coisa falar) - ao invés de “não vou nem falar uma palavra”; “Nem isso, nem nada” (nem nem uma só coisa) – ao invés de “nem isso, nem outra coisa” ou “nem isso e nada”. “Nem eu, nem você, nem ninguém” (nem nem uma só pessoa) - ao invés de “nem eu, nem você e ninguém”, ou “nem eu, nem você, nem uma pessoa”.
Sendo assim, sugiro que se retifique o conceito de TAMPOUCO, evitando assim o mal entendido.
Obrigado pela atenção - Clayton Ávila Alves - Consultor Legislativo”
Pelos padrões cultos, pelas normas gramaticais correntes, pelas regras em uso em bom português o sequer sempre deverá vir acompanhado de uma negação: “Não votou sequer para presidente”; “A garota nem era sequer simpática”; “Nem sequer respondeu-me a carta”. Mas na língua portuguesa que se fala no Brasil, o sequer está se tornando independente e vicejando sem o apêndice de outro advérbio. Carlos Drummond de Andrade assim começa seu longo e belo poema “O mito”, publicado em “A Rosa do Povo”, livro que reuniu sua obra poética produzida nos anos 1943-1945: “Sequer conheço Fulana, / vejo Fulana tão curto, / Fulana jamais me vê, / mas como eu amo Fulana. / Amarei mesmo Fulana? / ou é ilusão de sexo? / Talvez a linha do busto, / da perna, talvez do ombro.”
Com o advérbio sequer está acontecendo o mesmo processo de evolução semântica ocorrido com jamais, um outro advérbio que nos primórdios da língua não podia vir desacompanhado de outra negativa: “... já mays non ouv’i lezer... (“Cancioneiro da Vaticana’).
A negativa reforçada nunca jamais (corredia no castelhano: “Nunca jamás” é o nome de um delicioso bolero relançado no Nanna Caymmi) era freqüente nos clássicos: “Que... nunca jamais se pudesse alcançar delle que para os taes provimentos, mayores nem menores interesse por pessoa alguma” (Sermões do Padre Antônio Vieira, vol. 8, p. 233).
Hoje, o advérbio jamais não precisa de reforço negativo “Jamais votarei naquele candidato”, o que, por certo, sucederá com seu parente sequer.
Todavia, nos meus escritos, o sequer ainda vive em dupla ou com o nem ou com o não, ou até mesmo com o renão, que aqui relembro em homenagem ao presidente do Senado, Renan Calheiros, a bola da vez.

Envie seu Comentário
Os comentários feitos no Cassilândia News são moderados. Antes de escrever, observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. Não serão publicados comentários nas seguintes situações:

1. Sem o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail válido. Codinomes não serão aceitos.
2. Que não tenham relação clara com o conteúdo noticiado.
3. Que tenham teor calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade.
4. Que tenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas.
5. Que contenham linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica.
6. Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertencentes a correntes de qualquer espécie.
7. Que tenham característica de prática de spam.

O Cassilândia News não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.
Restamcaracteres.
 
Últimas notícias
Scroller Top
Sexta, 09 de Dezembro de 2016
Quinta, 08 de Dezembro de 2016
Scroller Bottom

  • Idalus Internet Solutions
  • TOP DataCenter e Internet
  • Disponível na AppStore
  • Disponível no Google Play
Rua Sebastião Leal, 845, CEP: 79.540-000, Cassilândia (MS)