Cassilândia, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

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20/09/2012 17:18

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Dupla negativa

Talvez você já tenha lido ou ouvido falar que não se junta duas palavras negativas na mesma oração, porque menos com menos dá mais. Isso pode ser em matemática, ciências exatas, no latim, ou nas línguas saxônicas, mas não em português.
Até mesmo no inglês, em cuja gramática padrão as negativas enfáticas (ou dupla negativa) são condenadas, há exemplos na linguagem popular em que a partícula ain’t traz um verbo contraído na forma negativa e vem seguida da palavra negativa nothing, constituindo assim uma dupla negação. O exemplo foi colhido em uma música do grupo Backstreet Boys: “Don\'t wanna hear you say / Ain\'t nothing but a heart ache / Ain\'t nothing but a mistake / (Don\'t wanna hear you say) I never wanna hear you say (oh yeah) I want it that way” (Em tradução livre: “Não quero escutar você dizer mais nada / Nada restou de mim, a não ser uma grande dor/ Nada restou de min a não se um grande erro que sou/ (Não quero escutar você dizer mais nada)/ Nunca mais quero ouvir você dizer algo (sim, pode ter certeza) / É dessa forma que quero que as coisas aconteçam agora.”
No latim clássico o advérbio non aposto a outra palavra de força negativa destruía o sentido negativo da frase, Duas negativas formam uma afirmativa: non hilum (absolutamente nada).
A negativa enfática (ou dupla negativa) é da índole de nossa língua. Está presente não só na linguagem cotidiana, oral, mas também na boa literatura: \'\'Nada sou, nada posso, nada sigo./ Trago, por ilusão, meu ser comigo. / Não compreendo compreender, nem sei / Se hei de ser, sendo nada, o que serei\'\', poetou Fernando Pessoa, em “Cancioneiro”, poemário publicado no início do século passado. E ainda, já na pele de Álvaro Campos, no poema “Tabacaria”: \'\'Não sou nada./ Nunca serei nada./ “Não posso querer ser nada / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”,
Do clássico Camilo Castelo Branco “Nunca por nunca deparei um homem que pudesse...”; “O sentimento nunca em tempo algum lhe deixou brilhar no rosto o festival rubor da mocidade”.
Ao tempo de Pedro Álvares Cabral escrevia Gil Vicente “Nem tu não hás de vir”; “A ninguém não me descubro”; “Nem de pão não nos fartamos”.
Em “Memórias Póstumas de Braz Cubas” o nosso maior escritor, o sempre correto Machado de Assis, escreveu: “Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhes quantas podia obter; Marcela juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava”. “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. E é dele também este outro exemplo: “Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos”.
Uma outra negativa, esta posposta ao verbo, reforça e enfatiza a negação: “Não vou, não”- “Não vejo ninguém aqui” – “Ele não sabe nada” – ”O time não tem nenhuma chance de vencer” – “Não fiz esse trajeto nunca”.
Na língua do povo a dupla negativa é expressa por diversas maneiras: Não vi coisa nenhuma; Não vou de jeito maneira; Não entendi bulhufas (= nada de nada, coisa nenhuma); Ele não tem um pingo de vergonha; Esta geladeira não é nenhuma Brastemp; Não encontrei nenhum defeito; Aquilo não vale nada, não”; Não tenho nadica de nada”.
Um dos mandamentos da lei de Deus diz: “Não matarás” (Ex 20,13). Aqui também a expressão é uma negativa enfática, pois o preceito ‘não matar’ se refere às mais variadas formas humanas que levam à morte, isto é, à negação da vida.

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