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20/06/2008 01:10

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

As tolices da moda

Que o mundo está mudando, ninguém duvida. Aliás, está mudando desde o ‘fiat lux’ inaugural. A linguagem, então, essa parece estar de roupa nova todos os dias. Se não nova, de roupagem tingida, que muitas vezes se esvai às primeiras lavações.
No significado usual, muleta é um bastão comprido, geralmente duplo, com encosto superior adaptado à axila no qual se apóia aquele que tem dificuldade ou impossibilidade para andar. Não é bengala, também um bastão de apoio, normalmente simples, para o caminhar, para o deambular.
E clichê é a placa com fotogravura, saída da moda, destinada à impressão tipográfica de imagens ou textos. Hoje, o comando é o da digitalização pela leitura óptica do scanner.
Na fala – e até mesmo na escrita – muletas são as palavras de que se serve o operador da expressão verbal para preencher os claros, os brancos do pensamento ou da memória; clichês são os termos que se tornam lugares-comuns em razão de constante repetição, os pronto-socorros da ignorância ou da preguiça verbal.
Nosso presidente Lula é um reconhecido muleteiro conríntio-futebolístico: adora apoiar suas longas falações nos “veja bem”, “acompanhe meu raciocínio”, “inclusive”, “estou convencido”, “nunca nesse país” e no “então”. Ele é o exemplo-destaque de agora: fala muito, dizendo pouco ou sem nada dizer.
Mujitos não começam uma oralçai sem o apoio do “daí” ou nem as terminam sem o indefectível “né”.
Já o clichê - frase ou palavra que se banaliza por ser muito repetida – é freguês de caderneta no manejo da língua. São os modismo. Faz pouco tempo, tudo estava inserido no contexto ou a nível de e enquanto pessoa; nos dias de hoje, é um tal de resgate da cidadania, de inclusão social, de exclusão civil, de agregar valores, de buscar governabilidade etc.
O tão alardeado programa “Fome zero”, passe de mágica de invejável dimensão político-eleitoral, já não é o arroz, feijão, farinha, carne ou proteínas e nem mesmo a sustância: é resgate da cidadania, como se essa locução verborrágica eqüivalesse às três refeições diárias anunciadas ‘urbi et orbi’ no discurso presidencial da primeira posse.
Antes clamava-se contra a desigualdade na distribuição dos bens de consumo: poucos com muito e muitos com quase nada. Agora é a exclusão social, como se o pernosticismo de palavra ocas pudessem substituir os programas voltados ao equilíbrio da disparidade sócio-econômica reinante.
O ‘agregar valores’ não passa de balas de festim de recepção política. Se o artesão produz um tapete de barbante, está ‘agregando valor’ a sua mão-de-obra; se um pecuarista industrializa o leite ou faz embutidos de carne, por exemplo, está ‘adicionando renda’ ao seu produto. Tudo baboseira, tudo obesidade verbal. Palavras de circunstâncias, expressões do momento.
O ‘buscar governabilidade’ está sendo o biombo com o qual se procura esconder a inapetência administrativa ou a ociosidade congênita...
Já a língua que flui normal, sem os penduricalhos do pretenso saber, a língua crua, o português gostoso a que se referia o poeta Manoel Bandeira, essa resta desfigurada nas muletas, bengalas, bastões, estereótipos, clichês & cia., geralmente importados.
Está na hora (politicamente correta, para se usar mais um dos bordões da atualidade) de se repensar a língua do Brasil.

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