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11/12/2009 06:59

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Risco de Vida ou risco de morte?

A “Folha de S, Paulo” de terça-feira, 6 de dezembro, no caderno Cotidiano, noticiando o estado de saúde do dramaturgo Mário Bortoloto, baleado três vezes na madrugada de sábado passado em um bar, na Praça Rosevelt, região central de São Paulo, informou que o teatrólogo “está em estado estável e não corre mais risco de morte”. O repórter Norbertino Angeli, do jornal “Novo Tempo”, de Chapadão do Sul, reclamando da ditadura da televisão, que impõe modos e modas, indagou-me: “Afinal, é risco de vida ou risco de morte?”.
Em artigo aqui publicado há quase três anos, dizia eu, com apoio no “Aurélio - Século XXI” que risco é o “perigo ou possibilidade de perigo. Uma situação em que há probabilidades mais ou menos previsíveis de perda ou ganho com, p. ex., num jogo de azar, ou numa decisão de investimento” O risco é sempre um contratempo, uma dificuldade, uma perspectiva de perda, quase sempre no sentido de coisa ruim: risco de guerra, risco de câmbio, risco de doença, risco do jogo, risco de ficar retido numa estação de embarque sem a expectativa de relaxar e gozar, risco de uma aventura romântica com pesada pensão alimentícia. Corre-se o risco de morrer sufocado, de ser roubado, de ser traído ou de se eleger um demagogo ou corrupto.
A língua é dinâmica e está em permanente processo de mudança. Não deve ser encarada unicamente sob o enfoque do certo ou errado e nem submetida à lógica formal do conhecimento verdadeiro. Assim não se pode a priori, com laivo de verdade absoluta, afirmar que o emprego da expressão risco de vida ao invés de risco de morte esteja incorreto, ou vice-versa.
O Dicionário Houaiss traz exemplos do emprego de "risco" com o sentido de "probabilidade de perigo" ("risco de vida", "risco de infecção", "risco de contaminação"). O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, edição de 2001, apresenta "risco de vida" e "perigo iminente de morte" como expressões equivalentes. O exemplo em frente foi colhido na Bíblia: "Ainda que cometesse mentira a risco da minha vida, nem por isso coisa nenhuma se esconderia ao rei; e tu mesmo te oporias" – (2 Samuel 18:13 – tradução Almeida, edição de 1994).
Conheço duas explicações para o emprego de risco de vida ao invés de risco de morte: uma, é forma elíptica Correr o risco de [perder a] vida. ‘Elipse’ é a omissão deliberada de palavra numa frase; outra, é o eufemismo, isto é, a substituição de uma palavra muito forte (morte) por outra mais suave (vida).
A maioria dos jornais e as emissoras de televisão, de uns tempos para cá, estão preferindo a expressão risco de morte. São os modismos da imprensa, como, por exemplo, o empregar os demonstrativos “esse” ou “desse” quando referentes a coisas presentes, a coisas de Lula, seguidas como regra gramatical invulnerável.
Antigamente – e isso não faz muito tempo, não, – o comum era o emprego da frase risco de vida. A ambigüidade, porém, não é exclusiva de nossa língua portuguesa. Risco de vida e risco de morte também se digladiam e vicejam no inglês (risk of life, risk of death), no espanhol (riesgo de vida, riesgo de muerte) e no francês (risque de vie, risque de mort).
Apesar de em escritos passados ter defendido essa posição, hoje, mais refletido, considero que ambas estão corretas, embora a primeira esteja léguas e léguas à frentte na aceitação popular. A mesma figura gramatical da elipse – omissão deliberada de palavra numa frase – ocorre também em risco de morte. Seu emprego, porém, estaria condicionado ou a uma estrutura adjetivada (risco de morte súbita – risco de morte precoce) ou a termo circunstancial (risco de morte por afogamento. – risco de morte por inanição – risco de morte por parada cardíaca).
Observação importante: ambas as expressões denotam situações diferentes, não podendo uma ser substituta da outra..

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