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05/05/2011 16:27

Alcides Silva: Língua Portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Fossa e dor-de-cotovelo

“Eu que falei sem pensar / Agora me arrependo, roendo as unhas / frágeis testemunhas /de um crime sem perdão” / (...) “Um erro assim tão vulgar / nos persegue a noite inteira / e quando acaba a bebedeira / ele consegue nos achar / num bar. /com um vinho barato um cigarro no cinzeiro /e uma cara embriagada no espelho do banheiro” (de “Refrão de Bolero”, pop/rock de Humberto Gessinger, interpretado pela excelente banda gaúcha ‘Engenheiros do Hawai’).
Típica “música de fossa”, que nos deixa em frangalhos quando se ouve; aquela que de repente nos toca nos ouvidos e nos faz lembrar, sofrendo, de um passado de amor dolorido, que não se esquece.
“Fossa” é uma forte depressão moral, geralmente o despeito em razão de uma decepção amorosa: ‘despeito’, do latim despecto = olhar de cima para baixo. Daí, fossa.
Qual a origem dessa expressão? É modismo lingüístico do Brasil. Gíria.
Quem sofre um desgosto no amor tende a ficar longo tempo de ideia fixa, reflexionando o ciúme, padecendo da chamada ‘dor-de-corno’: cabeça vergada, sustentada nas mãos, braços e antebraços articulados e apoiados numa superfície, pensativo, mergulhado em profundas cogitações. O longo tempo dessa ‘ruminação’ faz doerem os cotovelos. Daí, também, ‘fossa’ é a ‘dor-de-cotovelo’.
Elis Regina contava que “beber pra esquecer é teimosia / Hoje muito whisky, muita alegria, /amanhã ressaca, saco de gelo / O bar não é doutor que cure a dor de cotovelo / A dor pra curar não tem receita / É corcunda que se deita / sem achar a posição / E sentir saudade não faz mal / Não é no fundo do copo / que você vai encontrar sua moral / Beber pra esquecer...(A composição é de A. Nazareno)
Hervê Cordovil é autor de conhecida canção, cujos versos refletem a dor de cotovelo: “Eu tou doente, morena / doente eu tou, morena / Cabeça inchada, morena tou, tou e tou / Ai, morena, moreninha, meu amor / Você diz que me namora, morena /mentira, morena, namora morena /namora, não./ Ai, morena, moreninha meu amor / você diz que por mim chora, morena / mentira, morena / Agora, morena /não chora, não”.
Aliás, no Brasil, ‘dor de cotovelo’ e ‘fossa’ constituem gêneros de canções populares se entrechocam e das quais Lupicínio Rodrigues foi o grande autor (“Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher e depois encontrar esse amor nos braços de um tipo qualquer”) e Dolores Duran e Maísa, as magníficas cantoras.
Cotovelo provém do latim cutibellu, diminutivo do substantivo cubitus. Aliás, o osso da face interna do braço chama-se cúbito.
De conformidade com Houaiss, a palavra veio de cubital, alis ‘almofada (em que se firma o cotovelo)’ ou de cubitalis ‘que tem a altura de um côvado’ (antiga medida de comprimento equivalente a três palmos, ou 66 centímetros).
Nem todos entendem a expressão “deu com os cotovelos na cerca”. Esse falar do povo tem o mesmo significado de esticar as canelas, empacotar, ir para o beleléu, embarcar desta para a melhor e muitos outros ditos populares que trazem o significado de morte, de morrer.
Na gíria brasileira, falar pelos cotovelos é o mesmo que falar demais.
Em latim a locução reponere cubitum significava recolocar o cotovelo, isto é, recomeçar a comer.

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