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03/02/2011 16:36

Alcides Silva: Língua portuguesa, inculta e bela!

Alcides Silva

Cacografias

O leitor já deve ter visto o numeral e o artigo indefinido uma serem escritos com um apóstrofo substituindo o m. Os que assim agem, justificam-se dizendo evitar o cacófato: u’a madeira, u’a macarronada.
Em bom português isso não existe. É invencionice de falsos puristas, artificialismo de professores desinformados e infundado exagero de gramaticóides de terceira categoria. Quem escreve “u’a mão” comete CACOGRAFIA (erro de grafia) e ressalta uma CACOFONIA praticamente inexistente,
Ensina Matoso Câmara Jr: “Não convém exagerar o esforço contra o cacófato a ponto de apelar para vocábulos obsoletos ou artificiais. Tal é, em vez de uma em contato com mão, manga etc., a forma de u’a, em que o apóstrofo pressupõe a supressão do ¬– m -, quando na realidade se trata de uma obsoleta desnasalação da forma arcaica ua (com til no u)” Dicionário de Filologia e Gramática, p.97-98).
O vernáculo registra o artigo indefinido ua, pouco usado e que às vezes funciona como numeral: \"Aliás, tenho mesmo ua memória muito fraca\" (Mário de Andrade, Os Filhos da Candinha, p. 60).
Cacófato é som desagradável, ridículo, obsceno, com sentido equivocado, resultante da junção dos sons de duas ou mais palavras vizinhas. Isso não há em uma mão, uma maçã etc.
Rui Barbosa ensinava que “quando inevitáveis, as piores cacofonias se toleram. Fez-se o ouvido a elas: habituou-se; já não as sente”. E mais à frente, lembrava: “Aí a lei da necessidade obriga as exigências da eufonia à condição fatal de transigir” (Réplica. tomo II, p. 112). E ele nessa mesma “Réplica” (nº 89), denominou de cacofatomaníacos aqueles que, coléricos e com escrúpulos exagerados, viam, a qualquer encontro de sons, o erro implacável: “Se a idéia de porta, suscitada em por tal, irrita a cacofatomania desses críticos... outras locuções vernáculas têm de ser, com essa, refugadas”.
Não há como substituir expressões como chefe da nação, por tal e tantas outras, pelo simples receio do “mau som”.
“Alma minha gentil que te partiste” poetou Camões.
No sermão da Quarta Dominga da Quaresma disse Padre Vieira: “Que faz o lavrador na terra, cortando-a com o arado, cavando, regando, mondando, semeando? Busca pão. Que faz o soldado na campanha, carregado de ferro, vigiando, pelejando, derramando o sangue? Busca pão”.
Eça de Queiroz, em O Crime do Padre Amaro, usou destas expressões para caracterizar o sobrenatural: “o patético drama duma alma mística...”
Nem por isso deixaram Camões, Vieira e Eça de serem considerados príncipes dentre as maiores expressões da literatura de língua portuguesa.
Se causar um som chulo, ou for um palavrão, tenha ou não sentido pornográfico, é cacófato: Ele toca gado – Acabou-se tudo – O triunfo da verdade – A boca dela – Por razões diferentes- Ele marca gol - Conforme já foi dito – O time já ganhou – O time nunca ganhou – Bafo de onça - Como a concebo - Por razões - Havia dado são expressões que devem ser evitadas, porque o efeito sonoro resulta em palavras ridículas ou obscenas. Para tanto, recorre-se à sinonímia ou a mudança da construção sintática.
Assim, não se preocupe com eventual combinação de sons que possam surgir com a pronúncia de duas palavras. O cacófato só existirá se dessa junção nascer uma palavra ou expressão de sentido obsceno ou torpe, que desagrade seus próprios ouvidos.

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