Cassilândia, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

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25/01/2019 13:30

Afastado, técnico de enfermagem acabava de voltar a rotina de 3 turnos

Colega de trabalho ressalta que o acontecido não é surpresa para profissionais da área e que pressão e sobrecarga contribuem para depressão e suicídio

Campo Grande News

A extensa e exaustiva carga de trabalho de profissionais da saúde debatida há tanto tempo tem culminado em distúrbios psicológicos e ações extremas. Em 25 dias, Campo Grande registrou nesta sexta-feira, o segundo suicídio do ano de profissionais da área da saúde. Colegas garantem não ser coincidência.

Com três empregos e afastado há três meses pela psiquiatria, o técnico de enfermagem William Flávio Corrêa Franco, 37 anos, se matou no banheiro do CTI (Centro de Terapia Intensiva) da Santa Casa, três dias depois de retornar ao trabalho.

No dia 2 de janeiro, a enfermeira Janaína Silva e Souza, 39 anos, foi encontrada morta na casa onde vivia, em Campo Grande. Ela foi encontrada ao lado de frascos de medicamentos e uma seringa - também, conforme a investigação cometeu suicídio. Janaína trabalhava no Hospital Regional.

O caso não é surpresa para os colegas de classe. Conforme uma técnica de enfermagem de 47 anos, que preferiu não se identificar e trabalha há nove anos na Santa Casa, as condições de trabalho contribuem para que o profissional adoeça física e psicologicamente, até que não aguente mais. “Eu também trabalho no CTI, são 12h exaustivas de trabalho, é pressão para todo o lado, além disso, não somos reconhecidos, mal pagos, temos que ter mais de um emprego, não conseguimos nos relacionar direito com nossa família por causa disso e tudo vai acumulando”, disse.

“A depressão é uma coisa séria e que tem nos acometido muito, tanto a classe dos técnicos, da enfermagem, quanto dos médicos, nós cuidamos de vidas e ninguém cuida da nossa”, denunciou. A técnica conhecia William e alega que ele não estava bem. “Não deviam ter deixado ele voltar, ele comentou que não estava muito bem e ainda mandam para o CTI onde tem um monte de droga à disposição”.

O comportamento era ao contrário do esperado pelos colegas. “Quando ele foi afastado, a gente até brincou que ele estava dando o golpe porque ele era muito brincalhão, divertido, para cima, tirava sarro de tudo, nunca imaginamos que ele estaria em depressão”, ressaltou.

Por ironia, neste mês é comemorado o “Janeiro Branco”, mês de conscientização sobre a saúde mental no trabalho. De acordo com o coordenador do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho), da Santa Casa, Regis Aparecido Moreira, a causa é pública e preocupante. “É um problema da classe por toda pressão e sobrecarga que eles carregam, por isso tentamos amenizar isso disponibilizando consultas psicológicas e psiquiátricas aos profissionais”.

Sobre o uso do medicamento do hospital, a assessoria informou que alguns medicamentos são restritos apenas a prescrição médica, mas que o anestésico utilizado é de uso comum no CTI e fica à disposição do setor para que o paciente possa receber a medicação de forma rápida.

O presidente do Coren MS (Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso do Sul) avalia a questão como uma epidemia e não um fator ligado à profissão. “Nunca é uma causa só, hoje em dia com a pressão por todos os lugares nós nos frustramos mais e estamos suscetíveis a doenças como a depressão e outras que nos levam a este fim, mas como lidamos com vida, com certeza envelhecemos mais e desenvolvemos doenças não só psiquiátricas como físicas”, disse.

Como prevenção, o Conselho alega que fiscaliza os hospitais e locais de trabalho para garantir condições de trabalho melhor e materiais de segurança aos profissionais. Esta semana, o Coren ainda promove um seminário sobre o sofrimento mental dos profissionais. “O Conselho sugere também à toda categoria, sensibilidade na identificação do sofrimento de colegas de trabalho e das pessoas pertencentes aos demais círculos sociais. O intuito é que mais vidas não sejam interrompidas", descreveu o Conselho em nota de luto.

De acordo com os números divulgados pela Prefeitura de Campo Grande, de 2012 a 2017 foi registrada uma média aproximada de 65 tentativas de suicídio por mês. Segundo levantamento do Núcleo de Prevenção às Violências e Acidentes e Promoção à Saúde, neste mesmo período, houve um total de 4.892 tentativas.

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