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26/03/2016 07:34

A falta de limite que a Polícia vê vai além da festa no vizinho do desembargador

Paula Maciulevicius, Campo Grande News

 

As três idas até a casa onde acontecia uma festa no bairro Santa Fé, em Campo Grande, na madrugada de sexta-feira, é "fichinha" perto da falta de limites que a Polícia, tanto Civil quanto Militar, vê e tem de lidar todos os dias. No caso de ontem, foram 28 jovens fichados que vão responder por pertubação da ordem e do sossego alheio, depois de som exagerado e a recepção da PM com direito a vaias já na quarta tentativa policial de acabar com o barulho.

O delegado que atendeu a ocorrência na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Centro, Emilton Zala, diz que, apesar das críticas de que o grupo só foi detido porque a denúncia partiu de um desembargador, provavelmente ninguém seria levado à delegacia se não tivesse ido tão longe.

"Não é porque é um juiz que estava morando ali. Ele é apenas uma vítima que foi identificada, mas se olhar nossas ocorrências, vão ver perturbações de tranquilidade e sossego toda semana. Todos os dias nós registramos boletim de ocorrência contra todas as pessoas que violam a lei", garante.


Zala tem uma década como delegado no Estado e um ano e meio como plantonista em Campo Grande. Ele explica que a polícia tem de intervir nos momentos em que exigem uma pronta atuação. "É infrator, a Polícia presenciou, ela autua", enfatiza. Foi assim na madrugada de sexta. Na casa de classe média alta, o desaforo começou com o som, seguiu com o volume cada vez mais alto e terminou com vaias contra a PM.

Na mesma região, o dono de um hotel também procurou a Polícia na sexta-feira para reclamar que os hóspedes estão "fugindo" por não aguentar mais o barulho em uma conveniência na Avenida Ceará, problema denunciado há meses, sem solução.

A experiência de anos faz o delegado relatar o que geralmente ouve quando a festinha rola, sem nenhuma preocupação com quem dorme ao lado: "Muitas pessoas falam que só estão curtindo e aproveitando e na revolta de estarem sendo autuadas, falam que sofrem ação descabida do Estado. Eles têm o direito de escutar música, desde que não não abuse do direito alheio. O que não se pode é fazer um terceiro escutar a música que você quer ouvir, aí ele tem o direito de acionar o Estado contra", explica.

Nas ruas há oito anos como policial militar, o tenente Everton Myller Franco diz que a falta de limite dos filhos, muitas vezes é verificada na postura dos pais. "O vínculo emocional que o pai tem com o filho não o faz enxergar a realidade, eles sempre vão acreditar na palavra do filho e depois da autoridade", avalia.

É mais uma afirmação confirmada ontem pelo delegado Zala, quando os pais se restringiram a reclamar da ação, sem assumir responsabilidade pelo acontecido dentro de casa. O que revoltou, foi o fato de haver "coisas mais importantes" do que o som alto em uma festa. "Ele (dono da casa) inclusive achava que estava certo, mas aí é questão de educação e essas pessoas não têm, não respeitam autoridade policial e ainda reclamam quando violam a lei. São dignas de pena e de receberam aplicação dela (lei)"

Policial militar há oito anos, André Saldanha trabalha nas ruas e atende diariamente ocorrências em que a falta e o desrespeito começa assim que a viatura vira a esquina. "Ficam no som alto, na perturbação. Aí você vai lá, conversa com a pessoa... Mas saiu dali, o Ciops liga de novo, porque aumentaram o som. Vai de novo, volta, conversa, sem resultado", conta Saldanha.

O policial relata que percebe que as pessoas acreditam que se não estiverem em "flagrante, se a polícia não estiver vendo, não é crime".

Na maioria das vezes, os jovens envolvidos nesse tipo de ocorrência, ainda tentam o que Saldanha enxerga como "intimidação". Filmam e fotografam a ação. "Fica um monte de gente filmando, esperando o policial fazer alguma coisa errada. A verdade é que todo mundo conta com a polícia, mas ninguém quer ser abordada por ela".

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