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14/11/2014 07:00

A despedida de um amor de 64 anos em um beijo e uma flor de jasmim

Paula Maciulevicius, Campo Grande News
A despedida de um amor de 64 anos em um beijo e uma flor de jasmim

 

Miudinha, encolhida e com uma saudade acumulada nos olhos. As lágrimas de dona Stella não eram de despedida ao poeta. Eram de um adeus ao Manoel esposo, companheiro de 64 anos. As roupinhas que usava nesta quinta-feira, data em que o coração do poeta deixou de bater, pareciam dar lugar à ela e todo amor vivido por décadas.

Dona Stella de Barros tem 93 anos e foi ao velório para dar um beijo de despedida. Chegou acompanhada do neto Felipe. Os passinhos que já eram curtos, ficaram ainda mais devagar. Os olhos de todos se voltaram à ela. Dona Stella ficou viúva de uma vida.

Nas mãos, um terço e uma flor de jasmim. "Ele sempre dava para ela e hoje ela trouxe para ele", resumiu o neto Felipe de Barros. Dona Stella foi se despedir. Passou 30 minutos sentada, ao lado do marido. Acompanhou, em pé, a oração do padre e pediu para ir embora.

"Ela é muito forte, mas é lógico que a ficha vai caindo aos poucos. Um viveu a vida inteira com o outro", explicava a neta Joana de Barros.

Dona Stella é ciumenta. Mas, segundo um dos netos, em 36 anos de vida, nunca viu o casal brigar e nem sequer levantar a voz. As palavras de Manoel gritavam simplicidade, mas ele nunca levantaria o tom de voz. Nem ela.

"Acima de tudo eles tinham respeito e admiração. Ele tinha uma admiração muito grande por ela. Na casa, ela tinha voz, ela mandava e isso que dava liberdade para ele. Ela sempre foi apaixonada pelo homem Manoel e ele apaixonado por ela", descreve Felipe.

Os ciúmes foram, até pouco tempo atrás, manifestados na cortesia de um pão-de-queijo gelado. O neto conta que certo dia, quando o poeta recebeu a visita de uma jornalista que, aos olhos de dona Stella o abraçava demais, ela ofereceu o salgado frio. "Mas ele também alimentava isso. Ele era moleque, brincava sempre", pontua o neto.

Muito religiosa, a história de que dona Stella ficou sem falar com o poeta depois de um verso que atribuía sexo à Nossa Senhora, é verdade. "Ele fazia poesia e dava para ela ler. Ela ficou brava, ela é muito religiosa. Meu avô teve de chamar o padre e ele explicou que não era ofensa e sim licença poética", lembra o neto.

Dona Stella e seu Manoel se conheceram no Rio de Janeiro. Ele, antes de ser poeta de alma, trabalhou com um sócio como corretor de imóveis. Ela era a cliente que foi comprar um apartamento com a herança que recebeu da família. "Eles se gostaram e começaram a namorar. Mas ela só ficou sabendo que ele era poeta aqui, quando veio morar aqui", diz Felipe.

Dona Stella foi de voz firme, pelo poeta, as fazendas herdadas do pai teriam ido à venda e o dinheiro lhe garantiria o privilégio de viver só de poesia. Ela não, segurou as pontas e segura até hoje.

A viúva de Manoel de Barros não vai deixar a casa onde o casal viveu, na Rua Piratininga, no bairro Jardim dos Estados, em Campo Grande. Ela vai continuar porque, segundo o neto, "precisa ficar mandando no pedaço", além do fato de que aqui, tem família e amigos que sempre lhe estendem à mão ou tocam a campainha.

"A flor era um presente dele para ela. Ele não comprava presentes, tirava do jardim a jasmim".

"Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz. Hoje eu desenho o cheiro das árvores."

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