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18/09/2006 07:22

A crônica do Corino: O ‘Psicólogo’ de Jacobina III

Corino Rodrigues Alvarenga
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Num certo dia apareceu lá no biombo de Sena – biombo é o apelido carinhoso da mais concorrida barbearia de Jacobina – um senhor bom de prosa conhecido por Zé Tortinho. Dono de uma conversa fácil e bem desenrolada, convenceu o grande repórter e cinegrafista Sena a lhe vender um revólver.
Defensor da lei, Sena não pensou duas vezes: tinha mesmo que passar aquele pepino para a frente, afinal estava já em vigor a nova lei do desarmamento. Para facilitar o negócio, ofereceu um copo de cerveja para a vítima... digo, comprador.
Sena usava uma camisa com um logomarca político Jacobina ama Jacobina já fazia quase uma semana. E naquela segunda-feira o calor estava de lenhar. Sena suava mais do que a cerveja em seu copo de 500 ml. Zé Tortinho falou que o barbeiro estava com a mesma camisa havia três dias. Sena fechou a cara e disparou:
- Banho que eu tomo, cara, é bem tomado e dura uma semana – filosofa sempre ele dessa forma quando algum engraçadinho se mete a questionar os seus banhos à francesa. – Woody Allen já dizia que banho é esnobismo, cara. Mas vamos ao que interessa, cabra veio!
Zé Tortinho caiu ali como uma luva. Estava na hora certa e no lugar certo. Comprou o revólver de Sena. Só houve um pequeno problema: a compra foi na base do fiado, - “na conta do abreu; se ele não pagar, nem eu” – e o grande barbeiro e cinegrafista não viu a cor do dinheiro.
Passa uma semana. Passa um mês. Passam três meses. E nada do dinheiro. Um dia o rapaz teve a ousadia de ir ao biombo de Sena. E sem levar o tal do dinheiro.
Sena foi firme, com dedo em riste:
- Olha aqui, ó, cara: ou traga o meu dinheiro ou devolva o revólver. Se não tiver bala na agulha, devolva a agulha. E não estou brincando, cara! Vai e volta com o meu dinheiro.
Zé Tortinho, percebendo que Sena estava falando sério, voltou noutro dia com o dinheiro e resgatou a dívida.
Alguns dias depois Zé Tortinho apareceu por lá de novo. Interessou-se por uma geladeira velha, amarela, que estava ali logo na porta do salão do barbeiro-cinegrafista. Zé Tortinho, de olho na cerveja de Sena e também na geladeira velha, puxou conversa:
- Graças a Deus e por nosso Senhor Jesus Cristo, eu...
- Cara, falar de Deus, tudo bem. Agora esse rapaz aí, Jesus, esse não. Você viu, cara? Ele veio à terra... não sei, não. Só fez confusão, cara! Ele era comunista e morreu porque era contra aqueles romanos lá. E Maria como ficou nessa parada, cara? Teve umas coisas feias pelo meio... Agora, Deus, sim; Deus, o velhinho de barba branca tá lá em cima, quietinho, sentado, só pagando as nossas contas. É um Deus lhe pague que não acaba mais. Olha, cara: a conta tá comprida. Vai do Oiapoque ao Chuí. E o velho firme: só pagando, só pagando. Mas vamos lá. Tu tá de olho arregalado na geladeira. Com esse olho aí, cara, você não entra no Japão, não.
- Quer me vender? – disse Zé Tortinho. - Eu te pago em dia.
- Em dia ou em dias?
- Em dia, Sena. Eu juro.
- Não jura, não. Quem fala a verdade, não jura. Juramento é coisa de quenga! Mas presta atenção, cabra veio... Tu vai me pagar que dia mesmo?
- Na semana que vem. Quinta-feira está bom?
- Quinta-feira, quinta-feira ou é quinta-feira, qualquer dia, cara?
- Quinta-feira, quinta-feira, Sena. Eu prometo.
- Ôxi, ôxi, ôxi! Esse negócio de promessa é coisa que não dá certo, não. Quem promete é político, cara. Tem essa coisa pelo meio. Tira essa coisa daí, cara!
- Tudo bem, tudo bem. Como você é cismado, Sena!
- Cara, cachorro mordido por cobra tem medo de lingüiça. Tudo bem.Vou te vender, mas tem que pagar no dia certo. Se não me pagar, vou na tua captura, cara!
E Zé Tortinho se foi. E levou a geladeira velha.
Passa uma semana. Passa um mês. Passa o tempo e nada. Sena mandou chamar o homem. Ele apareceu lá num sábado. O salão estava cheio de jornalistas, radialistas, profissionais liberais. Era gente se espremendo, suor saindo pelo ladrão. Era o caos de tão aperto.
E Sena lá, tomando cerveja e fazendo a barba de Bau, um antigo freguês da casa.
Sena cobrou o dinheiro da geladeira na frente de todo mundo; Zé Tortinho disse que não ia pagar porque a geladeira não prestava e só deu prejuízo. Disse também que não devolveria porque tinha gastado muito dinheiro para consertá-la.
Do bate-boca para um verdadeiro rebuliço foi um passo. Sena ficou alterado; Zé Tortinho dava pulos de raiva. Todos ficaram preocupados. O tempo estava fechando. Sena queria briga; Zé Pretinho também. Sena deixou a navalha de lado e foi até a porta.
“Pronto: vai ter briga e feia”, pensei.
O nosso barbeiro-cinegrafista foi à porta e pôs o dedo em riste, bem na cara do mau pagador. Todo mundo ficou apreensivo. Zé Tortinho deu um grito para mostrar que não tinha medo.
Sena falou, olhando olho no olho, em alto e bom som:
- Olha, cara eu vou te dizer uma coisa muito séria agora!
Todos ficaram ainda mais alarmados. “É agora que o bicho vai pegar. A briga vai ser feia”, pensei novamente.
- Diga, Sena! – desafiou Zé Tortinho. - Pode dizer, vai!
E Sena, com a cara vermelha de raiva, filosofou, de forma mais pausada e sábia:
- Olha, cara, toda araruta tem o seu dia de mingau!
Todo mundo levou um verdadeiro choque. O Zé Tortinho ficou parado. De repente começou a rir. As testemunhas também. Passaram da apreensão ao delírio. Foi uma gargalhada só, uníssona.
E Sena voltando-se para a turma:
- Viu, cara? Eu disse poucas e boas para ele.
E Zé Tortinho foi embora. Sem pagar a geladeira, é óbvio.

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