Cassilândia, Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

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17/12/2006 20:38

A crônica do Corino - Natal sem fome

Corino Rodrigues de Alvarenga
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Natal sem fome

O Natal é o período em que as pessoas amolecem o coração. Eu costumo dizer que o coração é o órgão do nosso corpo que serve apenas para pulsar o sangue e fazê-lo circular, enquanto o verdadeiro “coração” é o cérebro. Ou seja, eu costumo usar, portanto, uma definição meramente científica, concordando com o que os médicos pregam no cotidiano.
É por isso que vejo a necessidade de as pessoas amolecerem também o cérebro. Melhor: usarem melhor o cérebro.
Todo ano é a mesma coisa. Todo ano tem o Natal Sem Fome.
Mas todo ano também percebe-se que a fome permanece entre os mais carentes que vivem na linha de miséria, segundo os padrões internacionais para efeito de IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, em que o Brasil aparecem em 86º lugar, uma colocação pífia que nos mostra em situação pior do que a de muitos países subdesenvolvidos da África, Ásia e América Latina.
O Natal Sem Fome, a meu ver, é praticamente a mesma coisa que o Fome Zero. São rótulos até bem parecidos. Governos e entidades não-governamentais, com muitos políticos em busca de votos também envolvidos, gostam muito de fazer campanha de distribuição de alimentos e brinquedos no período do Natal.
Todo ano são distribuídas milhares e milhares de toneladas de alimentos durante o Natal e o Brasil continua com fome.
A explicação para o fato é óbvia: as pessoas não comem apenas no Natal, mas nos 365 dias do ano. A fome não acontece só quando a panela está vazia no Natal, mas durante o ano inteiro. A criança, a Mariazinha, filha da Mariana, que mora lá em Afogados da Ingazeira, não quer maisena na mamadeira somente no Natal, mas durante todo o ano.
O grande problema brasileiro, e eu venho batendo nesta tecla há muito tempo, é a concentração de renda, em que 5% dos brasileiros detêm 50% do Produto Interno Bruto, o nosso querido e injusto Pib.
Enquanto não houver justiça social, com geração de mais emprego, com uma carga tributária mais forte para as grandes fortunas e com tributos mais realistas para quem ganha pouco, de nada adiantará o simpático rótulo Natal Sem Fome. Ou o Fome Zero.
A distribuição de alimentos durante o Natal não passa de um desencargo de consciência das elites senis deste País que passam o ano inteiro dentro de mansões protegidas por muros altos e suas cercas elétricas; que não podem andar com o vidro do carro aberto porque vai ser assaltado no farol por um pobre coitado que não tem comida em casa, porque este está desempregado e as tais elites senis não lhe dão um emprego com salário digno.
Há uma parte boa das elites brasileiras.
Há os bons pecuaristas que investem na qualificação de seu plantel, que geram empregos formais e que recolhem impostos aos cofres do País quando vendem ou abatem os seus animais; há, no entanto, os gigolôs de vaca, que abatem animais clandestinamente no fundo da fazenda, que não recolhem impostos e que não geram empregos formais. Há, portanto, os pecuaristas cidadãos e há os gigolôs de vaca.
Há os bons agricultores que produzem a riqueza do País, que não degradam o campo, que geram emprego e renda, que são úteis ao Brasil; há, todavia, os gigolôs de grãos, que exploram, que atravessam, que burlam a lei e surrupiam os recursos dos bancos oficiais.
Há os bons comerciantes e industriais que produzem boa parte das riquezas nacionais, fazendo crescer o nosso Pib e as exportações, que geram empregos formais, que recolhem impostos religiosamente; há, porém, os gigolôs de loja, que sonegam impostos, que só querem levar vantagem, que encostam o umbigo no balcão da loja ou que ficam no botequim da esquina só falando mal dos políticos e do governo, enquanto saqueiam o sonho de um futuro melhor de seus subempregados, que são mal pagos e, que, portanto, não ganham o suficiente para viver dignamente.
Há bons e maus brasileiros. Há bons e maus políticos. Há bons e maus legisladores. Há bons e maus magistrados. Há bons e maus gestores públicos nos poderes executivos da vida. Há os bons servidores públicos e há os gigolôs do serviço público.
Pensai nisso, senhores do governo e da iniciativa privada: os miseráveis não precisam de comida apenas no Natal.
Eles precisam, sim, de comida, cultura, dignidade, cidadania e de emprego o ano inteiro.
De nada adianta encher as suas panelas e as suas mesas na noite do Natal e, no dia 26 de dezembro, o “day after”, não ter nenhum caroço para comer.
O Brasil precisa de muito mais do que belos rótulos que nascem das pranchetas de políticos e marqueteiros.
O Brasil precisa, sim, de Natal e mais 364 dias sem fome. Sem hipocrisia. Sem demagogia. Sem falsidade.

Corino Rodrigues de Alvarenga
Contato com o colunista:
corino_leia@hotmail.com

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