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16/11/2006 07:11

A crônica do Corino - Irmão de sangue

Corino Rodrigues de Alvarenga

Como eu já escrevi, tive a felicidade de nascer em Cassilândia, no longínquo mês de julho de 1963, na localidade denominada à época – não se se hoje ainda é chamada assim – de Entroncamento do Itajá, a uns quinze ou vinte quilômetros da sede do município.
Mas não foi uma vida fácil. Meu saudoso pai, José Marinho, passou a apresentar problemas mentais intermitentes. As crises iam e voltavam com grande freqüência.
Disseram-me que ocorria devido ao trama de ter perdido a primeira esposa, Francisca, vítima de um acidente quando teve sua cabeça decepada pela moenda movida por tração animal num engenho de cana-de-açúcar.
Minha saudosa mãe, a professora autodidata Almira, também tinha problemas de saúde, o mais grave a epilepsia, que lhe perseguira por quase toda a vida. Minha mãe, segundo dizem meus irmãos, às vezes ficava desacordada por várias horas, impossibilitando, assim, os cuidados com os cinco filhos. Um dia ela adoeceu e não mais abriu os olhos, deixando filhos órfãos, que, graças à solidariedade dos irmãos, parentes e amigos, foram salvos.
A morte de meu pai foi ainda mais trágica: ele cometeu suicídio, na certa numa de suas crises que lhe causavam fortes dores de cabeça, usando um revólver, numa tarde silenciosa sob um pé de laranja, na fazenda Água Limpa, de propriedade do meu irmão João Ferreira, o popular João Marinho, engenheiro de grande conceito profissional por várias décadas de serviços prestados em Cassilândia e na região.
Assim, perdi meu pai quando tinha onze anos e a minha mãe quando eu já havia completado vinte anos de idade.
A casa em que nasci tinha uns três cômodos. O banheiro era o próprio mato. Mas voltando à paupérrima e rústica casa, ela era coberta de capim do brejo e toda de pau-a-pique, que era propício para a proliferação de animais nocivos à saúde, como, por exemplo, o barbeiro, encarregado de transmitir doenças ao ter contato com o ser humano.
Talvez tenha sido por isso que meu irmão Luiz Antônio tenha morrido nos primeiros dias de vida.
Diante de todo aquele quadro de grandes dificuldades – sem que eu tenha exagerado em uma única vírgula -, apareceram duas luzes que chegaram na hora certa: o meu irmão João Marinho e sua esposa Delaide. Graças a eles, eu e meus irmãos – com a exceção de Luiz Antônio – estamos vivos nesta vida abençoada por Deus e por todos os santos possíveis.
E quando escrevi acima “irmão de sangue”, referi-me diretamente ao meu irmão João Marinho. Assim que cheguei às mãos do médico de plantão do Hospital Cassilândia, verificou-se que eu tinha poucas gotas de sangue no corpo – e o pouco já estava amarelecido. Os vários miligramas de sangue doados por meu irmão mantêm-me vivo até o presente momento.
É por isso que sempre agradeço a Deus e ao meu irmão, inconscientemente, sem que ele, João Marinho, saiba. Estamos distantes um do outro uns dois mil quilômetros.
Mas estamos unidos. Pelos laços de irmandade. Pelos laços de sangue. Somos, afinal, irmãos de sangue.

Corino Rodrigues de Alvarenga
Contato com o colunista:
corinorodrigues@hotmail.com



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