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24/07/2015 08:00

"Sem resistência, as sementes orgânicas podem desaparecer"

Portal Segs

Formado em Agronomia, Lin Chau Ming é professor Titular da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, Câmpus de Botucatu. Realizou pós-doutorado em Botânica no Jardim Botânico de Nova Iorque (1998-99) e em Etnobotânica na Columbia University (2007-2009). Realiza pesquisas com horticultura, focado em plantas medicinais e etnobotânica, estudo da relação entre os humanos e as plantas que utilizam. Foi editor chefe da Revista Brasileira de Plantas Medicinais de 1998 a 2012. Além de livros técnicos e científicos na área de agricultura, publicou neste ano de 2015, em comemoração aos 50 anos da FCA, Seringas, seringueiras e seringueiros, sobre as experiências vividas no Acre; e As vendedoras de hortaliças de Shangai. “Seringas, seringueiras e seringueiros” e um de fotografias, “ As vendedoras de Hortaliças de Shanghai”. Nesta entrevista, que integra o Especial IPPRI_Unesp sobre Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), Ming fala da importância da Agroecologia para a política de SAN. 

Leia entrevista:

IPPRI_UNESP – Poderia explicar o conceito de Agroecologia?

Ming – Talvez haja alguma divergência teórica e mesmo ideológica sobre agroecologia ou práticas agroecológicas. De forma ampla, Agroecologia é uma ciência que valoriza o trabalho do agricultor na produção de alimentos e, além disso, une elementos das áreas de Ecologia e Meio Ambiente. Na Agroecologia podemos utilizar diferentes insumos naturais e diferentes tecnologias com o intuito de construir as bases da agricultura “sustentável”. Na minha opinião, o consumidor de produtos agroecológicos das grandes cidades não considera o fator humano nessa produção, embora ele pense em um tipo de plantação ambientalmente correta.

IPPRI_UNESP – Desde 1998 o senhor coordena o Grupo Timbó de Agroecologia, da FCA. Nesse período, quais foram as conquistas do Grupo?

Ming – O Timbó é constituído por uma minoria dentre os estudantes. No entanto, pouco a pouco estamos conquistando espaço pela realização de atividades de Extensão, não somente de mostrar como são as práticas naturais de produção de alimentos e de lidar com os agricultores, mas também de fazer experiências científicas. Experiências agronômicas, mostrando uma outra ideia de como poderia ser a prática agrícola sem utilizar produtos químicos. Então, trabalhamos para manter viva a ideia da Agroecologia e da produção de alimentos preservando o ambiente e, acima de tudo, dando suporte à parte humana desse negócio – os agricultores. Buscamos saber quais são os anseios desses agricultores, discutir com eles as demandas locais, em lugar de levar demandas. No Timbó temos alunos de Biologia, Zootecnia, Agronomia e Zoologia. Procuramos envolvê-los nas experiências de campo, atendendo as demandas dos lavradores.

IPPRI_UNESP – O senhor também desenvolve um trabalho de Extensão pelo qual promove transferência de tecnologia agroecológica para o agricultor familiar em comunidades remanescentes de quilombos em Iporanga (SP). Como é essa atividade?

Ming – Trabalhamos com esses remanescentes desde 1997. Aos finais de semana levamos os estudantes para Iporanga, onde podem vivenciar o cotidiano do agricultor familiar. Então eles observam a parte agrícola, a de artesanato, os recursos da floresta, plantas medicinais, quer dizer, coisas que são diferentes do agronegócio. Além disso, transferimos conhecimento de técnicas agroecológicas, inclusive criamos um manual sobre o assunto. Essas viagens são justamente para apoiar agricultores da região. Um fator comum entre eles é que nem todos são agroecológicos. Aliás, a maioria não é. Nossa grande demanda é fazer essa transição, de uma agricultura familiar com bases não agroecológicas para uma com bases agroecológicas. Isso é uma ação muito difícil. O agricultor faz daquele jeito há 20 ou 30 anos. Durante nosso período em Iporanga observamos mudanças nas práticas dos agricultores com os quais tivemos contatos. Esses, por sua vez, transferem as informações, ainda que de forma lenta, para outros, por intermédio dos mutirões. Como o setor dominante é muito forte, acredito que nossa ação tem uma abrangência mais restrita.

IPPRI_UNESP – Qual a relação entre Agroecologia e Segurança Alimentar e Nutricional (SAN)?

Ming – A Agoecologia tem a ver com SAN pelo fato de produzir alimentos não contaminados por veneno. Também precisa ser reforçado que a Agroecologia garante liberdade de cultivo ao agricultor. No mundo, a base alimentar vem sendo restringida ano após ano. Significa que a humanidade tem menos variedade de plantas para o dia a dia. Mais do que isso, as sementes dessas plantas cultivadas estão em mãos de um pequeno número de grandes empresas multinacionais. No Brasil, a partir dos anos 1970, as empresas nacionais que produziam sementes foram compradas por multinacionais. Atualmente o agricultor depende dessas empresas para obter sementes. E as sementes fornecidas por essas empresas são menos variadas em relação às do pequeno agricultor.

IPPRI_UNESP – Quer dizer então que Segurança Alimentar não significa apenas garantir o alimento, mas fazê-lo de forma variada e com qualidade?

Ming – Mais do que isso. É dar garantia para o produtor escolher o que ele deseja produzir. Os acervos do Ministério da Agricultura e do Ministério do Desenvolvimento Agrário mostram que um certo número de plantas do consumo cotidiano do brasileiro é mantido pelos agricultores familiares. Certos produtos, a exemplo da soja e do milho, são produzidos por grandes produtores, e alguns deles só para exportação. São commodities reguladas pelas multinacionais. Se não houver resistência, as sementes orgânicas podem desaparecer.

IPPRI_UNESP – Qual o problema de não haver variedade de sementes?

Ming – Há diversas visões sobre a ausência de sementes variadas para a agricultura. Posso falar com mais propriedade pelo ângulo da Agronomia. É preciso variedade de sementes para estudar formas de controle de doenças, para obter tipos diferentes de nutrientes, fazer o melhoramento genético e também para maior produtividade. Nos anos 1900 houve uma grande migração de irlandeses para os Estados Unidos, fugidos da Europa por causa de uma doença que dizimou a cultura da batata pela falta de variedade resistente à doença. É estranho pensar nisso hoje, mas muita gente escapou da fome imigrando.

IPPRI_UNESP – No Estado de Mato Grosso o senhor coordena uma atividade de extensão junto a etnias indígenas. O que está sendo feito por lá?

Ming – Desenvolvo com alunos, desde 2006, um projeto de resgate e reintrodução de material genético alimentício, particularmente o milho. A etnia Pareci, em Mato Grosso, produz uma variedade de milho “fofo”, da qual se extrai um tipo diferente de amido. A importância dessa variedade de milho para os indígenas não é somente alimentícia. Mas também cultural. De garantia de alguns rituais sagrados daquelas comunidades. Lá entre os Pareci, antes de abrir uma área para fazer agricultura, eles pedem autorização para algumas de suas santidades. Então eles fazem os rituais de oferecimento com uma espécie de mingau feito com o milho “fofo”. Não pode ser usada outra variedade. Como o milho “fofo” estava em extinção, os Pareci deixaram de fazer o ritual de oferecimento. Para conseguir sementes dessa variedade fizemos expedições em outras etnias. Atualmente cerca de 20 aldeias voltaram a cultivá-lo. E voltaram também a fazer os rituais. Então, Segurança Alimentar inclui aspectos culturais e antropológicos.

IPPRI_UNESP – Como o senhor avalia a iniciativa da Rede SAN da Unesp?

Ming – Trata-se de um projeto multidisciplinar que envolve nutricionista, geógrafo, agrônomo, antropólogo e, na minha visão, ele consegue expandir a percepção dos participantes. Talvez assim consigamos fazer uma análise mais ampla da Segurança Alimentar, que não compreenda apenas como qualidade ou quantidade do alimento, mas também outros enfoques que poderiam ser dados nessa cadeia mais geral da Segurança Alimentar no Brasil. Eu tenho críticas à produção de transgênicos. Primeiro pela questão da falta de variedade genética. Segundo, a dependência que o agricultor cria em relação às multinacionais. Terceiro, o alto preço pago pela semente a esses grandes grupos. Se o agricultor usa uma semente híbrida ou transgênica em uma safra, na seguinte ele é obrigado a comprar novas sementes. Ao contrário, na Agroecologia o agricultor tem liberdade de produzir sua própria semente.

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