Cassilândia, Sábado, 18 de Novembro de 2017

Luciane Buriasco

05/06/2017 09:16

Não estamos condenados a nada como é

Luciane Buriasco Isquerdo
Não estamos condenados a nada como é

Ninguém discorda de que o mundo já mudou muito, seja no espaço de tempo de nossa infância à nossa vida adulta, seja ao nos debruçarmos nos livros de História. Mas se espalha no momento um sentimento de que o Brasil está condenado à corrupção, ou como chamou o Procurador da República Coordenador da Força Tarefa da Lavo Jato, Deltan Dallagnol, ontem, na Folha de S. Paulo, à cleptocracia.

Quando entrei no curso de inglês, com doze anos, não havia internet. Ainda me lembro quando alguns anos depois, quando já conseguia entender, assisti a um desenho do Patinho Feio, de Hans Christian Andersen, sem legenda, trazido pela dona do curso por ocasião de viagem dela ao exterior, sugando cada palavra que ouvia, tamanha a raridade de um material assim. Com a mesma sede li a primeira revista que me veio à mão e fiz aula de conversação assistindo a um comercial de TV gravado por outra professora em viagem, numa fita VHS (se não souber o que é, copia e cola no Google). Já na faculdade, tive acesso à TV a cabo e o mundo sem legendas se abriu para mim, então professora de inglês. Mas jornal escrito em inglês ainda era coisa de aeroporto em São Paulo, uma raridade, até porque meu trajeto se dava normalmente de ônibus.

Em 2008 chegou o primeiro IPhone no Brasil, o smartphone da Apple, que passou a fazer parte da minha vida em 2010. Desde então, revistas e jornais em inglês são aplicativos acessíveis instantaneamente, ao mesmo tempo que alguém que mora em Londres pode assim ler seu jornal. Sim, Londres, aquela que foi invadida pelos romanos, quando habitada por tribos sem maior importância, e que com a queda do Império Romano, no século V, - algo inimaginável a seu tempo, inclusive - foi deixada aos saxões, de cuja língua descende o inglês. Com a invasão normanda em 1066, foi escolhida para capital, passando por duas grandes tragédias praticamente seguidas, a Peste em 1665 e o Grande Incêndio em1666, que destruiu a cidade além muros completamente. Londres cresceu tanto nos séculos XVIII e XIX, que se tornou a maior e mais rica cidade do mundo. E quando a destruição já parecia passado, foi duramente bombardeada na Segunda Guerra Mundial, exigindo uma reconstrução enorme.

Agora alvo de seguidos ataques terroristas, Londres é hoje repleta de gente do mundo todo, que não somente a visitam como nela moram, e se dizem bem recebidos, com destaque para indianos, árabes, inclusive com o primeiro prefeito árabe da história, vítima via Twitter do preconceito de Donald Trump, este final de semana, que não fez a mesma crítica à Primeira Ministra, Theresa May, quando no último ataque terrorista deu a mesma declaração de "não se alarmem e sigam suas vidas" dada agora por ele, Sadiq Khan.

Talvez seus cidadãos estejam se perguntando se haverá fim ao terrorismo, mas se se lembrarem de toda sua História, por certo se convencerão de que também isso será só um capítulo dela. Vai passar.

Voltando à tecnologia, passou o fax, a máquina fotográfica, o disco de música, vinil ou CD, e até aquela revista de sala de espera de consultório ou salão de beleza. Todos tem seu smartphone, afinal, no mínimo para checar o Facebook e o WhatsApp, mesmo que na nossa terrível velocidade local de internet, algo que poucos se dão conta de que tem tudo a ver com nossa cleptocracia, inclusive. É que importamos o modelo europeu de ao privatizar as empresas de telefonia, criar agências reguladoras, autarquias governamentais com a finalidade de fiscalizar a qualidade do serviço. Por então temos problema de qualidade?

Tudo muda. O mundo avança. Quem diria que a monarquia um dia acabaria na França, a Corte que talvez mais esbanjou dinheiro na História? Mas quero ficar na Inglaterra como forma de me solidarizar pelo novo ataque. Quem diria que a monarquia, para se manter, teria que deixar a chefia de governo ao Parlamento, onde há tanto os representantes da nobreza como os do povo, num por eles bem visto equilíbrio entre interesses diversos? Liberdade e monarquia: realidade difícil de imaginar se voltarmos os olhos na História para os reis do passado.


Mas também é difícil imaginar aquelas grandes festas em suntuosos palácios com os jardins sendo usados no lugar de nossos banheiros com água encanada. E o mundo a cavalo então? Sem a velocidade de um carro, menos ainda a de um avião? Comunicação por carta ou mensageiro, sem serviços de correio?

Definitivamente, parece que não, mas o mundo fica diferente e tudo que parecia para sempre fica para trás. Mesmo deixando a tecnologia de lado, passou o obscurantismo da Idade Média, as Cruzadas, a Inquisição. Passou a ditadura no Brasil. A Guerra Fria. Caiu o Muro de Berlim. Não houve a Terceira Guerra Mundial. O mundo nunca acabou.

Como se vê, alargando um pouco os olhos, dá para concordar com Deltan Dallagnol: não estamos condenados à cleptocracia. Uma nova política surgirá. Acabaremos, ou minimizaremos até se tornar insignificante nossa corrupção, como é hoje em nossa homenageada Inglaterra. Não acreditem neste discurso, portanto, de que todos são corruptos e não há o que fazer. Não se rendam. Grandes impérios ruíram. Londres foi reconstruída tantas vezes. Que a Lava Jato seja a nossa tragédia. Que nossa política esteja em pleno Grande Incêndio, às vésperas de completa reconstrução. Afinal, por que não?

(*) Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

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