Cassilândia, Sábado, 23 de Setembro de 2017

Luciane Buriasco

17/04/2017 09:40

Luciane Buriasco: Você está na lista?

Redação
Luciane Buriasco: Você está na lista?

Conhecem o perfume Carolina Herrera 212 VIP, onde na caixa vem escrita a frase "Are you on the list?", que, traduzindo, fica "Você está na lista?". Quando vi pela primeira vez, fiquei pensando do que se tratava. Como assim estar na lista? O que isso tem a ver com perfume? Aí, refletindo, observei que o nome do perfume era "VIP", uma abreviatura para "Very Important Person", ou seja "Pessoa muito importante". A ideia então era nos instigar a comprar o perfume, com a ilusão de sermos importantes, já que esse é um desejo nosso. Em alguns shows em buffets em Campo Grande, observei que há opções de mesas, mais caras e em frente ao palco, e de ingressos lá do fundão que chamam, pasmem, VIP. Não há outra categoria de ingressos. Mas como todos querem ser importantes, dão o nome de VIP ao setor.

Com tantas listas na mídia recentemente: lista de Janot, lista de Fachin, fico imaginando a angústia de um político ou empresário corrupto para não encontrar seu nome na lista. Nesse tipo de lista de processados ninguém quer estar. Pouco importa seja a mesma pessoa a integrar as listas VIPs das festas, afinal, por que alguém se corrompe se não para ganhar dinheiro e com dinheiro tornar-se respeitado, importante, membro de seleto grupo, diferente dos demais?

Há uma história bonita sobre delação premiada, forma de colheita de prova que tem levado às tais listas. É a história do advogado de Al Capone, conhecido como Easy Eddie. Ele, depois de anos livrando seu cliente, o maior mafioso do século XX, de ações judiciais e policiais, em delação premiada, denunciou os crimes de seu cliente. Teria feito isso para dar exemplo ao filho, porque seguindo em sua bem remunerada profissão não o faria. Foi assassinado a tiros um ano depois da prisão de Al Capone. Seu filho, Butch O'Hare, foi um piloto de caça que se tornou herói americano por ter enfrentado sozinho uma esquadrilha inimiga que ameaçava sua base. Morreu em combate na Segunda Guerra Mundial e hoje dá nome ao principal aeroporto de Chicago, nos Estados Unidos. Serviu ao seu país; foi melhor que seu pai, como este queria.

Por aqui as razões não têm sido assim tão nobres. Pai e filho, ambos no comando da empresa que talvez mais tenha pago propina na História, divergiam acerca de delatar ou não e há quem diga que romperam relações. Parece que não havia outra forma de salvar a empresa, nem de fugir às condenações criminais, atenuadas pela delação. No início, uma certa arrogância de quem está acostumado a não se submeter à lei: o pai disse que se seu filho fosse preso, que preparassem também a cela de Lula. O filho foi preso em 2015 e Lula até hoje não.

Toda essa operação, a conhecida Lava Jato - que de à jato, rápida, não teve nada; foi mais como um fio que se puxa e o novelo nunca tem fim - demonstra a necessidade de se limpar uma sujeira profunda no Brasil, qual seja a da classe política e de grandes empresários, pessoas ricas, muito importantes, VIPs, perfil muito diverso das listas de nossos mapas carcerários. Daí se vê o quanto se paga às vezes para integrar seletos grupos, tornar-se VIP. E por aqui não se trata de um criminoso com muitos crimes, como Al Capone, mas uma verdadeira lista VIP de muitos criminosos com muitos crimes.

Na classe política, mesmo que não se enriqueça, o político experimenta o poder, torna-se celebridade, VIP, ainda que local; é bajulado, rodeado de um número significativo de pessoas sempre. Já não anda só. Há sempre alguém para quem se pedir alguma coisa, para dirigir, para abrir a porta. Fernando Henrique Cardoso escreveu um livro, Cartas a Um Jovem Político, da Publifolha, onde conta, entre outros, sobre isso de não mais dirigir nem abrir portas. Victor Hugo, dramaturgo e político francês, escreveu uma peça de teatro chamada Ruy Blas onde, em determinado momento, o personagem, sabiamente, diz algo como "Agora sou rei; antes era livre". Mas isso só quem experimenta sabe. E depois de um certo tempo, na verdade, tamanha nossa vontade de ser importante.

Há quem sustente, como o Diretor Woody Allen, no filme Para Roma com Amor, que a vida é entediante e tem dissabores para todos, para o anônimo e para o famoso, o pobre e o rico, mas que é melhor ser famoso e rico. Daria para concordar, mas as estatísticas de felicidade e de suicídio costumam dizer o contrário.

A verdade é que não precisava ser príncipe para tirar a Cinderela de sua condição de escrava no próprio lar; nem para acordar a Branca de Neve ou a Bela Adormecida. Bastava o amor, como a bela amou a fera. Nesses casos, vale observar que foi a beleza - coisa que também desejamos - que abriu as portas, na visão machista de que cabe à mulher ter beleza e ao homem dinheiro e poder.

O que basta em realidade são alguns amores, como o dos pais por nós, sem os quais dificilmente seremos felizes; e algumas satisfações substitutivas, aquelas mencionadas por Freud em O Mal Estar da Civilização, como religião, ciência, arte, para não cair nos vícios quando nos dermos conta de que a vida é difícil. Se houvesse uma garantia disso, talvez bastasse sermos respeitados em nossa condição humana, especialmente que não fossem violados nossos direitos injustamente. Seja como for, nem sempre é bom estar na lista.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito em Cassilândia, Mato Grosso do Sul, membro do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família, IBCCRIM – Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e bacharel em Direito pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.

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