Cassilândia, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

Luciane Buriasco

26/03/2018 08:20

Luciane Buriasco - Tolerância

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - Tolerância

Numa sociedade aberta, plural, dinâmica, complexa e de risco como vivemos historicamente hoje - diferente da Idade Média, por exemplo, é imprescindível a tolerância, filha da razão, ativa. Artur Kaufmann, no livro Filosofia do Direito, propõe o princípio da tolerância nas finais linhas de seu livro, explicando que ela exige capacidade de comunicação, de escuta, e maturidade espiritual. Propõe tolerância até para com os intolerantes, já que vez ou outra todos seremos, cuidando apenas para que a intolerância não seja aquela que ponha em perigo a liberdade. Reconhece que não seja algo fácil. Mas a única forma de atuação adequada no tempo em que vivemos, chamado por alguns de pós-modernidade.

Já não cabem sequer piadas, comuns há uns vinte e poucos anos, de negros, homoafetivos, mulheres, loiras, portugueses. Paremos um pouco para pensar. Negros não fazem coisas mal feitas. Foram escravizados e no Brasil seguiram trabalhadores mal pagos, pobres. Uma terrível coincidência histórica que se tenta contornar com cotas na Universidade e que bem caberia mais políticas públicas. Homoafetivos devem ser respeitados por sua escolha, seja lá por que razões psicológicas tenham feito tais escolhas. Todas as nossas escolhas, profissionais, afetivas, afinal, têm razões inconscientes. Mulheres não são inferiores, nem loiras são burras. Esta é só mais uma violência psicológica praticada por quem interessa diminuí-las. Os portugueses também não são burros. Deve ter apenas sobrado algum rancor nosso de ter sido colonizados por eles.

Antes da Segunda Guerra, ou talvez uma ou outra até depois, havia piada de judeus. Viu-se, com as cicatrizes do Holocausto, onde isso pode chegar. Muitos ainda se utilizam da expressão "judiar" alguém, sem se dar conta que estão com isso dizendo que judeus tratam mal a pessoas, e reforçando, ainda que por fixação na consciência, o preconceito.

O filme Os Meninos Que Enganavam Nazistas, baseado em história real, de Christian Duguay, mostra muito bem essa angústia de ora poder e ora não dizer que se é judeu. Num curto espaço de tempo o amigo da escola vira bullier e quem é contra judeu pode falar abertamente que o é. Quem é, para sobreviver, como os meninos do filme, deve dizer que não é. Depois de alguns anos, terminada a guerra, o mesmo menino pode subir numa mesa e gritar que é judeu. Está livre novamente para ser quem é.

Nosso tempo, pois, é de exercício de tolerância, mesmo com os intolerantes; de vigiar posturas, expressões, piadas, para não sermos agentes de (pre)conceitos. É hora de estarmos abertos às informações dos outros, à possibilidade de estarmos errados. Ninguém detém todo o conhecimento, que é dinâmico; está em construção. Há que se pensar, outrossim, sobre que razões nos levam à intolerância. Para se ter ódio a ponto de matar um travesti, por exemplo, e dizem que o Brasil é o país que mais o faz, o mais lógico é que se seja um sem coragem de se assumir. A agressão é um grito desesperado de socorro, dizem estudiosos. É o medo de perder a mulher que de tão grande preciso fazê-la acreditar que é menor ou não dou conta dela. É a inveja da loira que possa ser bonita e inteligente. O mal feito do outro que apontado por mim me faz menos inseguro dos meus mal feitos. É a síndrome de vira-lata de ser colonizado.

Seja lá quais forem as razões da intolerância, só se adaptará ao mundo de hoje quem estiver em dia com seus exercícios de tolerância. Vale para o relacionamento social, mercado de trabalho e mesmo espaço íntimo de afeto.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

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