Cassilândia, Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Luciane Buriasco

11/09/2017 08:20

Luciane Buriasco - Somos Um Só: Sempre Vítimas?

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - Somos Um Só: Sempre Vítimas?

 

 

 

Uma das novas músicas de Tribalistas - álbum lançado em agosto deste ano pelo trio Marisa Monte, Arnaldo Antunes (ex-Titãs) e Carlinhos Brown, 15 anos após o primeiro álbum com o mesmo nome, verdadeira pérola da MPB (música popular brasileira) - é Um Só. A letra fala em sermos um só e coloca juntos tipos antagônicos como comunistas e capitalistas, anarquistas e patrão, justiça e ladrão, quadrilha, mas não de criminosos e sim da dança das festas de São João. E ainda democratas e primatas, vira-latas e com pedigree, ralé da realeza, piratas, Guarani-tupis, saudosistas e futuristas.

Parece haver mesmo um maniqueísmo em protestos acalorados nos meios virtuais. Lida-se muito mal com a ideia de haver quem pense diferente. É bacana que se tome posições, pois assim rapidamente identificamos aqueles com quem temos afinidade. Mas quanta energia não é gasta em nada? Será que a sociedade está se politizando ou está intolerante? Os dois.

Chico Buarque, em seu novo álbum, respondeu muito bem às críticas que recebeu nas redes sociais por sua opção política favorável ao PT, nesses tempos de impeachment da Presidente da República que era desse partido, espécie de torcida pela prisão do líder do partido, cada vez mais alvo de delações premiadas e processos por corrupção, um deles com condenação, enfim. É inegável a crise do partido diante de tantos reveses, mas por que razão denegrir quem o apoie ou tenha apoiado? Em síntese, a música Desaforos fala que ele nem sabia que era tão conhecido e importante; que é apenas um mulato que canta boleros e chama suas opções políticas de meros lero-leros de um cantor. Diz que não merece sequer a ira; é só um vagabundo.

Antes da era digital, o povo só tinha voz quando reunidos num lugar - arena, praça - aclamavam ou se manifestavam contrários, gritando impropérios, atirando coisas ao palco. Eram insuflados por quem discursava; facilmente manipulados e abafadas prontamente opiniões contrárias pela voz mais alta da multidão. Mais recentemente na História, o povo passou a ter voz pelo voto, de cada vez mais todos: mulheres, analfabetos. Hoje, além disso, qualquer um pode se manifestar nas redes sociais e isso que replicar em compartilhamentos que, como se diz, viralizam, espalham facilmente.

Talvez por isso, por ser da vida cotidiana, do popular, que vemos músicas da MPB fazer menção ao fenômeno, lembrando que quando criticamos alguém ou alguma coisa estamos lhe dando atenção (Desaforos) e, seja lá o que formos, comunistas ou capitalistas, anarquistas ou patrão, somos um só: seres humanos que compartilham a mesma comunidade, do bairro, cidade, Estado, país, planeta, ou mesmo a digital, de nossa rede de relacionamentos.

Já que qualquer um é chamado à mesa de debates, e não mais especialistas no assunto, com anos de preparação e polidez, é preciso tanto tomar cuidado com as afirmações, como iniciar um processo educacional em que se diga o que se pensa, mas com respeito a quem pense diferente; com ataque à ideia e não à pessoa. Uma espécie de etiqueta virtual.

Caso não nos auto-critiquemos, podemos, sem pensar, meramente reagindo às notícias, identificarmo-nos sempre com a vítima: coisas lá de nosso instinto. Tem algo de fantástico em ser a vítima: o erro é do outro. É um mecanismo de defesa contra ataques imaginados por quem vive escondendo a sujeira embaixo do tapete e pode ser descoberto a qualquer momento. É o que explicaria o fenômeno pelo qual alguém que tem lá suas desonestidades vibrar com a possível prisão de um desonesto. Agora somos donos da Petrobrás. Sempre vítimas. E isso vale para qualquer notícia, talvez menos para as de crime sexual, que o machismo fala mais forte e nos identificamos com nosso gênero.

Até quando o crime nos bate à porta mais de perto e vemos quem amamos na pessoa do preso, somos vítimas. “É só usuário”, “é um menino bom, trabalhador”, “foram as más-companhias”: todas frases corriqueiras de familiares de presos na Justiça. É raro alguém assumir seu erro ou o erro dos seus. A culpa é sempre do outro. Assim, vítimas de uma injustiça, podemos continuar a ser quem somos, sem mudanças. Os criminosos também se dizem vítimas. É triste, pois nunca se aprende a lição. Ah, isso vale para relações de emprego e afetivas também, ou seja, toda descontinuidade.

Não. Sermos todos vítimas não é o sentido da música dos Tribalistas. Apenas acrescento: nós, que nos sentimos vítima estando em qualquer posição, mesmo a contrária, do criminoso, precisamos aprender que existe diversidade, respeito ao outro justamente por ser diferente de mim, embora ambos humanos. Comunistas e capitalistas somos um só. Não há razão para Desaforos. Que se permita às pessoas seus lero-leros. Não gostou? Não curte, nem segue, nem compartilha. Não dê, de sua parte, voz ao criticado. E se for dizer algo, que seja cada vez com mais educação. Afinal, somos um só. A gente vai aprender.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

Excelente texto.
Precisamos exercitar a compaixão.
"Sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem, acompanhado do desejo de minorá-la; participação espiritual na infelicidade alheia que suscita um impulso altruísta de ternura para com o sofredor".
 
Julio Jorge em 12/09/2017 10:01:36
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