Cassilândia, Domingo, 17 de Dezembro de 2017

Luciane Buriasco

20/11/2017 08:20

Luciane Buriasco - Restos de escravidão

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - Restos de escravidão

 

 

 

Hoje se comemora o Dia da Consciência Negra, instituído para que houvesse uma data para reflexão e avaliação de como anda a inserção do negro em nossa sociedade. Se já se vão 129 anos desde a abolição da escravatura no Brasil, o fato é que foi o último país das Américas a fazê-lo.

A desigualdade do negro e do branco ainda é gritante. Segundo dados do Dieese em pesquisa publicada na semana passada, na região metropolitana de São Paulo, o negro ganha 68% do que ganha o branco e esses dados são piores conforme aumenta a escolaridade (reportagem de 15/11/2017 no caderno Mercado, na Folha de S. Paulo) com pouquíssima presença nos altos cargos das empresas, e podemos estender para os órgãos públicos e governos. Os dados do IBGE apontaram que negros e pardos ganham 55%, metade, praticamente, que os brancos, em todo o Brasil. O desemprego é também maior entre eles, que somam 54% da população, mas são 63,7% dos desempregados. Somam ainda 66% dos trabalhadores domésticos e apenas 33% dos empregadores. A situação parece pior do que a da mulher, que teve a igualdade na lei reconhecida há bem menos tempo, exatos cem anos depois: 1988.

Não sei se em razão da data ou coincidentemente, veio a público na semana passada um vídeo gravado por um então editor de vídeos da Globo, Diego Rocha Pereira, em que o âncora do Jornal da Globo, William Waack, faz um comentário racista. Ao ouvir um som de uma buzina que incomoda, diz ser « coisa de preto ». Foi afastado do jornal, embora ao que consta ao menos por enquanto não foi demitido da emissora.

Esses dois dados, ganharem mais de trinta por cento ou metade a menos e haver comentários como este, vindo de um grande jornalista, demonstram que ainda não há igualdade entre brancos e negros por aqui. Há um racismo velado, do outro, como destacou Alexandra Loras, nas Tendências/Debates ontem, na Folha de S. Paulo. Segundo ela, anos atrás, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz publicou uma pesquisa segundo a qual 97% dos participantes se declararam não racistas, mas 98% conheciam pessoas que manifestavam algum tipo de discriminação racial. Ou seja…

É bem provável que a ausência de representantes nos altos escalões seja decorrente de preconceito nas contratações, nomeações, voto. Há no imaginário social a ideia de que devam ocupar postos mais baixos de serviço. Uma cultura tão forte que talvez mesmo entre eles, como se dá com o machismo entre as mulheres, não se ouse ir tão longe.

São os restos culturais de nossa escravidão. Não sei se também decorre dela, mas é curioso que num país com mobilidade social (todos conhecemos histórias de pessoas que subiram de classe social), coisa rara na Europa, por exemplo, haja tanto rancor nas relações trabalhistas. Mais que por lá. Não se olha junto para a mesma direção, mesmo na execução de um trabalho, e sim um contra o outro, empregado e patrão. Entre empregados que trabalham em setores mais perto e mais longe do patrão também, resquício dos trabalhadores da casa grande versus os da senzala. As pessoas parecem competir, com o discurso de vítima de perdedor por parte daquele que for mais pobre. Por certo obtém ganhos com isso, ou já teria abandonado o discurso. Talvez não haja um nome mais bonito que inveja para isso, com a raiva própria, que trabalha contra o invejado. Mas que é mais forte por aqui é.

Se pensarmos no trabalho em si, há um contrassenso: se se trabalha bem, a empresa cresce, pode-se alcançar postos mais altos de serviço, ganhar-se melhor. Se ela quebra, como tantas no Brasil, fica-se sem emprego. Um tiro no pé, dado diariamente. Talvez o aumento dos ganhos não se reflita nos salários; talvez haja exploração, desrespeito aos direitos trabalhistas. É o outro lado da moeda. Empregado satisfeito produz mais, logo se ganha mais com isso. No setor público, a regra é o concurso público; logo os postos seriam ocupados por mérito, que vai desde aptidão a esforço e determinação. Mas basta se ocupar um cargo de chefia para se perseguir o outro. O triste é essa cultura de que se esteja em lados opostos.

Provavelmente isso vá além da escravidão e seja coisa do ser humano, de insegurança, vaidade, inveja, maior ou menor cultura de valorização do trabalho. Mas essa marca triste de nossa História precisa de muita campanha, processos criminais e de indenização por dano moral, correções no nosso vocabulário, piadas esquecidas, políticas públicas de educação, desde a base, e instigação do sonho de ir além. Os responsáveis por contratações e nomeações devem se perquirir se não é a cor da pele a razão da escolha.

Muito, afinal, já se fez no combate ao preconceito de gênero e se começa a atentar para a idade, especialmente no mercado de trabalho, já que começam a ser raros os postos de trabalho dos mais de cinquenta e cinco anos, que de regra vêm perdendo espaço para os mais jovens, como destacou a reportagem de Tad Friend, Getting On, na Revista The New Yorker dessa semana. Não são poucas as igualdades a serem conquistadas.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

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