Cassilândia, Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Luciane Buriasco

10/07/2017 08:40

Luciane Buriasco - O Streaming e a Globalização do Bem

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - O Streaming e a Globalização do Bem

Não fosse a polêmica em Cannes, jamais teria assistido Okja. Para quem não acompanhou, Okja é o nome do primeiro filme feito para streaming, ou seja, não seria primeiro lançado nos cinemas para depois chegar a streaming (filmes que podem ser vistos na internet, através de assinaturas, como Netflix, Amazon ou ITunes), e DVD. Ele foi apresentado no Festival de Cannes, na França, em maio de 2017 e, meses depois, em junho de 2017, está disponível no Netflix, na mesma data, no mundo todo. O famoso Diretor Pedro Almodóvar, de quem sou fã pelo estilo muito próprio, forte, que caracteriza seus filmes, e que foi este ano, justamente, o Presidente da comissão de jurados do Festival de Cannes, saiu em defesa das telas do cinema, criticando a ideia de um filme tipicamente de streaming. Ao final do Festival, teve que desmentir que teria s ido contratado para dirigir uma série da Netflix, que supostamente assim o teria cooptado.

A polêmica foi interessante e talvez marque justamente essa nova forma de distribuir filmes, que atinge um número muito maior de pessoas, antes condenadas a assistir somente filmes velhos, quando ninguém mais fala deles nos jornais, como nós, que não temos cinema a menos de duzentos quilômetros, e com poucas opções, ou seja, os filmes mais comerciais entre os comerciais, quase infantis, em velocidade de videogame, regados a pipoca e Coca-Cola. Fechou o Cine Cultura em Campo Grande, afinal, e espaços como a Reserva Cultural e Unibanco/Itaú de Cinema, cercados de café, livraria, empório, enfim, são realidade de São Paulo apenas. Deve ter algo no Rio também, talvez Belo Horizonte e capitais do Sul do país. Pedro Almodóvar não conhece esta realidade. Referiu-se à opção entre ir ao cinema e ver em casa e fez sua defesa da magia da telona. Foi reacionário, polêmico, não se sabe se sincero ou se já vendia assim seu peixe por valor maior. Gosto tanto de seu trabalho que me inclino a achar que foi sincero e que a suposta proposta do Netflix é que foi a jogada capitalista.

E por falar em capitalismo, o filme tenta ser crítico do sistema, mostrando como feias atitudes antiéticas nos negócios, e como as pessoas logo esquecem as polêmicas e compram pelo preço. “Se for barato, vão comprar”, diz a dona da empresa em determinado momento, ao ser indagada sobre o comportamento dos consumidores após terem visto as práticas da empresa de maus-tratos aos animais. O filme mostra bem nossas incoerências: surrar a pessoa do subordinado na sociedade de defesa de maus tratos aos animais, comer alguns animais e escolher outros para tratar como se fossem nossos filhos. Esta parece ser a grande mensagem do filme . A própria personagem principal que salva seu gigante pet cria e come galinhas, pesca peixes, tendo por prato favorito ensopado de frango. Mostra também a incoerência de se não comer carne for um manifesto anti-capitalista, teríamos que nos recusar a comer vegetais também, um simples tomate que seja, e quase desmaiar de fome, como faz um dos personagens.

O que não gosto no filme é o que chamo de tributo, no sentido de homenagem, ao improvável. Há pelo o menos três cenas em que na vida real a mocinha do filme teria certamente morrido. E momentos em que a velocidade do “vai bater” é exatamente igual aos jogos de vídeo game. Prefiro filmes que muito embora possam mostrar uma vida em duas horas, as cenas escolhidas para contar a história se desenvolvam numa velocidade mais próxima da vida real. E filmes onde a expressão de rosto falem mais que as palavras. Filmes com boa fotografia, que nos transportam a lugares e situações - este leva para a vida rural no topo da montanha, enfim, que nos fazem pensar, inteirar-se do outro, de algo que não conhecemos ou com o que nos identificamos, como se nos mostrassem de outra maneira. Filme para mim é reflexão; não diversão no sentido “hahaha”.

Mas insisto que a polêmica com o streaming foi interessante. Acena para que este seja o futuro: assinaturas de empresas que nos proporcionem um cardápio de filmes em que basta clicar, sem necessidade de baixar e de ter os filmes fisicamente, seja no computador, seja em DVD. E sem que isso seja como comprar no fim da feira: lançamento no mundo todo, ao mesmo tempo. Fim da pirataria? Também, por certo.

O mais interessante é que se insere numa das formas de globalização da cultura. Já é possível assistir a apresentações de música, dança e teatro por meio de sites, em qualquer parte do mundo. É o caso do culturebox.francetvinfo.fr, https://www.culturetheque.com, o conhecido YouTube, entre outros. Claro que há as barreiras da língua, embora cada vez mais com cursos on Line e tradutores, bem como as um pouco mais difíceis barreiras culturais - esta curiosidade por se conhecer o desconhecido - tão pouco estimulada nas escolas, rodas de amigos e familiares. Um certo medo de perda. “E se o outro voar além de mim e me deixar?”

Do ponto de vista econômico, podemos dizer seguramente que a globalização trouxe mais desigualdade social, com concentração de riqueza cada vez mais na mão de menos pessoas, questões sempre à tona em encontros como o de Davos e o G-20. Por ocasião de Davos, em janeiro, vale lembrar que foi divulgado que os oito homens mais ricos do mundo possuem a mesma riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Se acompanharmos os dados dos encontros anteriores, veremos que a riqueza tem se concentrado na mão de poucos cada vez mais e velozmente.

O G-20, grupo formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeias, ocorrido na semana passada, foi marcado pelas expectativas do encontro de Vladimir Putin, Presidente da Rússia, e Donald Trump, dos Estados Unidos, já que se investiga nos Estados Unidos a interferência russa nas eleições que levaram Donald Trump ao poder. Outra marca foram os protestos na cidade que o sediou, Hamburgo, na Alemanha, contra o capitalismo e a globalização, referindo-se à pobreza e desigualdade produzida pelos mesmos.

Não há como se negar, contudo, que há benefícios na globalização. Ter as mesmas empresas no mundo todo, como MacDonald’s e Starbucks, para ficar no ramo alimentício, cria hábitos comuns. Com a internet, o mesmo jornal pode ser lido de qualquer parte do mundo, ao mesmo tempo, ou seja, também como os filmes de streaming, não chegam mais velhos, “nas bancas”. Não só jornais, revistas, rádios, mas se tem acesso a quase tudo de quase que q ualquer lugar do mundo. Os países já não estão isolados e seus povos se influenciam mutuamente.

A livre circulação de pessoas também tem sido cada vez mais realidade. É certo que Donald Trump anunciou muro na fronteira com o México e tentou restringir a entrada de árabes nos Estados Unidos, sendo derrotado na Justiça. A Europa enfrenta no momento severo problema de imigração, seja porque parece ser o que levou à saída do Reino Unido da União Européia, seja pelos refugiados, vindos ilegalmente de países muito pobres ou em guerra, como a Síria, em movimentos que levarão à sua integração na cultura ocidental de maioria cristã. Não tarda o dia em que seremos na Terra um só povo, com uma ou outra diferença que respeitaremos mais, porque as conheceremos, já que as veremos a todo momento.

No Mercador de Veneza, um dos clássicos literários de Willian Shakespeare, em determinado momento, o personagem judeu pergunta aos cristãos se por acaso não sangra ou ri igual (“If you prick us, do we not bleed? If you tickle us, do we not laugh?”) como lembra artigo desta semana na revista The New Yorker, de Stephen Greenblatt, que traduzindo se intitula A Cura de Shakespeare Para a Xenofobia.

O streaming, portanto, e a iniciativa de Okja, inaugurando esta possibilidade de acompanhar o lançamento de um filme esteja-se onde estiver no mundo, ao mesmo tempo, é, por certo, uma das formas de globalização do bem. É o acesso imediato à cultura, em qualquer parte do mundo, fazendo com que a vida não seja lá tão diferente de um lugar para o outro, já que terminaremos tendo, assim, hábitos parecidos.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

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