Cassilândia, Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018

Luciane Buriasco

22/01/2018 08:20

Luciane Buriasco - Não nos esqueçamos de nossas barbáries

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - Não nos esqueçamos de nossas barbáries

 

 

 

Quando estive em Berlim, a frase “Vergesst Das Nie”, num monumento em memória da morte de judeus pelos nazistas, chamou-me a atenção. É uma espécie de lema: não esquecer. Sim, e o valor de não esquecer o que aconteceu é justamente evitar que aconteça de novo, ainda que sob uma nova roupagem. Logo logo os sobreviventes dos campos de concentração terão morrido e já não poderão contar o que viveram. Pensando nisso, o Museu da Herança Judaica gravou em 116 câmeras, 1500 respostas de Eva Schloss, numa viagem dela a Los Angeles, criando uma imagem da mesma em terceira dimensão para quem os visitantes do museu podem perguntar o que quiserem, ver seu número ainda tatuado do campo de concentração, sem lhe causar qualquer constrangimento, e seguirão podendo fazer isso depois que ela morrer. É o que nos conta Anna Russell, na matéria Valente Mundo Novo, da Revista The New Yorker desta semana.

Eva Schloss tem a curiosidade de não ser somente uma sobrevivente do campo de concentração, mas ter conhecido pessoalmente Anne Frank, famosa pelo diário que escreveu enquanto estava escondida dos nazistas numa casa, o Diário de Anne Frank, mas porque sua mãe se casou, depois da experiência no campo de concentração, com o pai de Anne, o que as tornou meia-irmãs, embora após a morte de Anne Frank.

Fritz Lang, o famoso Diretor de cinema que morreu no ano que eu nasci, em 1976, vivia na Alemanha e sua obra-prima, Metropolis, que assisti neste fim de semana, lançado em 1927, foi vista por Adolf Hitler, que gostou muito e o convidou, juntamente com sua esposa, a roteirista Thea Von Harbou, para fazer filmes nazistas. A esposa aceitou. Ele fugiu para Paris e depois mudou-se para os Estados Unidos, separado da mulher. Na fase americana, fez filmes de violência física vinda de pessoas comuns, ao estilo que conhecemos de Alfred Hitchcock. No interessante documentário de Martin Scorsese, - o gigante Diretor de Cassino, O Aviador e O Lobo de Wall Street - O Cinema por Scorsese, uma entrevista de Fritz Lang é mostrada, e nela o Diretor fala desse lugar da violência em seus filmes, justificando que ela é nosso maior medo. Segundo ele, não temos medo de ser punidos depois da morte, mas temos medo de sofrer violência física.

Muitas leis são filhas desse medo: a rigidez com dirigir alcoolizado vem do medo de um motorista alcoolizado provocar um acidente de trânsito que nos mate ou machuque, ou a nossos filhos. A Lei dos Crimes Hediondos surgiu após a morte violenta da filha de Glória Perez, atriz, perpetrada pelo ator com quem contracenava, e sua mulher, já que motivado por ciúmes. A Lei Maria da Penha, por sua vez, da luta desta mulher contra a violência de seu marido, lembrando o medo de todas as mulheres de sofrer violência do parceiro, num mundo ainda machista. Isto para citar alguns exemplos mais presentes na mídia.

Fácil é hoje sustentar que o juiz deva aplicar a lei e punir severamente, saciando o medo da violência física do cidadão. Mas e quando a lei de um governo, como no nazista, permitia a matança dos judeus? Não é a lei que queremos seja aplicada, mas que a justiça seja feita. Agora, saciar o desejo de justiça é quase impossível. Se a sociedade pudesse escolher, nunca sairiam da cadeia os assassinos da filha de Glória Perez, por exemplo. Na ótica de quem ama o criminoso, toda pena é elevada. A culpa não foi dele; foram as companhias, a mulher com quem se envolveu.

Em determinado momento no filme Metropolis, a culpa é da bruxa, que instigou a revolta dos trabalhadores contra as máquinas, ela própria uma robô com aparência humana, criada por um cientista judeu. Hitler deve ter gostado disso da culpa ser do judeu. Acontece que na verdade se pode interpretar do filme a crítica de que a culpa seja de outro alguém. Afinal, os que perpetraram a revolta é que são os responsáveis por seus atos, inclusive de terem se esquecido de seus filhos e ordenarem alagar toda a cidade, onde estavam ainda seus próprios filhos.

No filme, a mensagem é que o cérebro e as mãos devem ser mediadas pelo coração. A máquina pode oprimir o operário, mas a saída não é a revolução, como havia ocorrido na Rússia recentemente, e sim o coração: uma administração da cidade que fosse em favor de todos; os operários com direitos, tratados como gente igual a seus dirigentes, com uma vida digna, lazer, enfim.

Seria o Direito esse coração, com o surgimento dos direitos trabalhistas? Como se viu depois que há leis sem coração, melhor sustentar que seja o coração mesmo, que mais se aproxima da Justiça. Há momentos no filme em que se fala em sermos irmãos. Todos, pois as barbáries de nossa História vêm de quando restringimos o conceito, excluindo, por exemplo, os judeus. Daí a importância de não nos esquecermos de nenhuma de nossas barbáries, como ditaduras, escravidão e tantas outras. Se considerarmos que há apologistas de torturadores candidatos à presidência da república e que um grande jornalista recentemente foi afastado do cargo, não sei se já demitido, por um comentário racista, talvez precisemos de mais monumentos por aqui, museus com imagens em terceira dimensão, filmes, novelas.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

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