Cassilândia, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

Luciane Buriasco

09/10/2017 08:20

Luciane Buriasco - Juntos e separados

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - Juntos e separados

Na semana passada vimos a Catalunha realizar um referendo separatista, com dura reação da polícia espanhola e é possível que já na próxima semana proclamem sua independência. Parece que desde meados do século XIX iniciou-se esse movimento, parte do nacionalismo, segundo sustenta Joan Mira, historiador valenciano, entrevistado por Diogo Bercito, em texto publicado ontem, na Folha de S. Paulo[1].

Penso que todo movimento separatista seja desaconselhável. Separar enfraquece. A tendência histórica tem sido de união, de cada vez menos soberania em troca de facilidades trazidas por moedas únicas, menos burocracia nas transações econômicas, tributação diferenciada, livre trânsito de pessoas. Mas é de se notar que temos também novos países recentes, como a República Tcheca e Eslováquia, onde antes era Tchecoslováquia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Sérvia, Croácia, Eslovênia, Kosovo, para citar alguns exemplos. E deu certo a separação.

Há, portanto, ao mesmo tempo um movimento de união como de separação. Na verdade, de unidades separadas, países, que se unem em blocos. Um desejo de autonomia, de que sua história, língua, etnia, nação, que é esse conceito subjetivo de sentir-se parte de um lugar, seja reconhecido. E, preservada sua identidade e autonomia, unir-se a outros iguais.

Visto por este ângulo não é tão ruim assim a independência da Catalunha. Em reportagem do jornal francês Le Monde[2], de 4 de outubro de 2017, de Anne-Aël Durand, vê-se que a região consegue se sustentar sozinha como país, e este é um dos principais argumentos separatistas, muito embora seu processo de adesão à União Europeia seria como de um país qualquer fora do bloco, ao menos em teoria, e isso demanda tempo, é bem provável uma piora imediata e a médio prazo na economia, que somente a longo prazo se reverteria. E na verdade é um tanto quanto discutível se a economia da Catalunha melhoraria com a independência. A própria instabilidade política se reflete na economia de forma negativa. Manter-se no Euro seria mais fácil. Há países fora do bloco que adotaram a moeda, como Andorra, Kosovo, Montenegro, Mônaco, São Marino e Vaticano. Fato é que a postura da União Europeia tem sido de não intervir, tendo a questão como interna da Espanha. Mediariam somente a pedido das duas partes, como é próprio da técnica da mediação, esta mesma hoje adotada na Justiça para os casos entre particulares.

Espera-se que a Espanha peça tal mediação ou de qualquer forma não apele para mais atos violentos de contenção da independência. Foi-se o tempo de tais guerras, muitas inócuas. Lembram-se de William Wallace na Escócia? Do filme Coração Valente? Toda uma luta e os nobres queriam se manter unidos à Inglaterra e acabaram traindo o movimento. Em votação há poucos anos, em 2014, optaram os escoceses por se manter unidos à Inglaterra, Irlanda e País de Gales no Reino Unido. É certo que o Reino Unido lhes confere certa independência. Mas inclusive agora com a saída da União Europeia por parte do Reino Unido quando na Escócia os votos foram na maioria pela permanência, vez ou outra se fala em independência. Ma s por acordo, votação, sem violência.

Esta busca por autonomia, identidade, e ao mesmo tempo estar juntos (separatismo e união em blocos de países), parece-se ao que vemos hoje nas relações afetivas. Uma das antinomias do amor contemporâneo, segundo Francisco Bosco, em texto da Revista Cult, de novembro de 2016, é o que ele chama de Eu x Outro (Identidade x Alteridade). De um lado, pela lógica do capitalismo, que visa ao interesse particular, por definição, aliada a uma revolução técnica, que fez surgir uma cultura de imagens, somos mais narcisistas. Muito diferente da cultura cristã, com sua ética de amor ao próximo. Saímos de uma cultura que privilegiava o outro e ingressamos em uma que privilegia o eu. Como fica o amor? Abrir-se ao outro e criar um mundo em comum com ele vai contra essa l ógica.

Mais ainda, sustenta o mesmo texto, com as conquistas de direitos do século XX, como os da mulher, esta passou a ser muito mais uma alteridade (outro) na relação. Daí uma valorização do sexo, aponta, lembrando a frase de Jacques Lacan, para quem não existe relação sexual. Cada um busca seu gozo.

A mulher, como de uma maneira geral o ser humano, quer se conectar ao outro, estar junto, como os países num bloco, mas desde que preservada sua autonomia, sua identidade, como os países que se separam.

Estar ao mesmo tempo juntos e separados: dilema das relações pessoais e dos países em bloco.

Para o mundo, em todo caso, muito pouca coisa mudará se em vez de Espanha, tivermos Espanha e Catalunha/Catalão naquele mesmo lugar. Ambas bem-vindas, provavelmente, na União Europeia e na comunidade internacional.

[1]http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/10/1925359-ninguem-de-fora-reconhece-historia-nacionalista-catala-diz-joan-mira.shtml

[2]http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/10/04/les-huit-questions-que-pose-la-future-declaration-d-independance-de-la-catalogne_5195953_4355770.html

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

 

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