Cassilândia, Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Luciane Buriasco

13/11/2017 08:20

Luciane Buriasco - Calma que o amor e a democracia sobrevivem

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - Calma que o amor e a democracia sobrevivem

 

 

 

A última edição da Revista The New Yorker, de 13 de novembro, divulgou a inauguração de um novo bar em Nova York, o Mood Ring, inspirado nos filmes de Wong Kar-Wai, como « In The Mood For Love » e « Felizes Juntos ». Parece que a própria luminosidade do bar lembra a fotografia de seus filmes, como as luzes noturnas, meio alaranjadas de Um Beijo Roubado, que reassisti no fim de semana. O filme é magnífico e leve ao tratar de um tema tão pesado: como lidar com o amor, especialmente com ser deixado. A personagem vivida por Norah Jones é trocada por outra pelo namorado e tenta entender o que o filme nos mostra ser meio impossível: por quê?

Numa das cenas o dono da lanchonete ao lado do apartamento do namorado tenta lhe dizer que cada um tem seu gosto e suas razões e não há como compreender; basta aceitar e seguir em frente. Ele mostra que uma torta deliciosa fica sempre intacta ao fim da noite, enquanto outras acabam sempre ou sobram só um pouco. Não é culpa da torta, diz ele. Fala em vários outros momentos dos pedidos dos clientes como suas opções e as compara com as opções afetivas que fazemos, reforçando a todo tempo que as pessoas fazem suas escolhas, não a melhor a nossos olhos. Ele também foi abandonado e nunca se mudou para que pudessem se reencontrar um dia. Ela vem uma noite, fuma um cigarro com ele e vai embora. E ele não é nada mais, nada menos que um personagem vivido por Jude Law, de aparência nada ensejadora de um abandono. É assim que devagar, no entrecruzar de muitas estórias de fim das relações afetivas, algumas trágicas, ambos se sentem finalmente prontos a iniciarem a sua estória de amor.

Talvez seja assim, sem se preocupar tanto com as razões, nem com o futuro, que devamos encarar outros fatos da vida, como a representatividade política, o como viver juntos com divergências de opiniões, a democracia. É fantástico e não se inventou nada melhor que por maioria votar em representantes do povo e escolher assuntos importantes, como manter-se ou não o país num bloco econômico. Claro que não é fácil para quem perde sofrer as consequências da escolha coletiva diversa. Está sendo um tanto quanto difícil para a Inglaterra sair da União Européia, para quem vende e de quem compra praticamente a metade de seus produtos. Muito difícil para os americanos suportar o Presidente que elegeram, que até que não foi tão péssimo como prometia na política externa, como aponta a matéria de capa desta semana da revista The Economist.

Esperava-se, como apontado na matéria de capa da semana passada da mesma The Economist, que as redes sociais melhorassem a democracia, com mais pessoas tendo acesso ao conhecimento. Ao menos num primeiro momento, isto se mostrou equivocado, já que se compartilha notícias falsas ou que incrementam preconceitos. As notícias são meio « à la carte », já que a todo tempo nossos dados e o que divulgamos dizem de nossas preferências e do que nos chama a atenção. As redes que se ampliam a todo instante podem espalhar e reforçar posicionamentos, inclusive o ódio a uma etnia, como aconteceu na Birmânia, onde o Facebook é a maior fonte de informação de muitos, e foi usado para aprofundar o ódio aos Rohingya, vítimas de uma limpeza étnica.

Dois dados interessantes da matéria: nos países ricos, as pessoas chegam a tocar em seus celulares 2.600 vezes ao dia e apenas 37% dos americanos confiam no que lêem na internet. Daí se vê que não há como por ora ao menos sair dessa espécie de vício virtual, mas, por outro lado, levará tempo, mas as pessoas não acreditarão em tudo que lerem nas redes sociais. Nem sairão odiando quem não odiavam. As redes sociais espalham, afinal, tanto coisas ruins como boas, podendo ainda dar conta de melhorarem o nível dos debates democráticos.

Sempre que se aumenta o acesso, abaixa-se o nível, como se deu com os cursos jurídicos, por exemplo. E me dizia o saudoso Prof. Luis Alberto Warat que era melhor assim, o que eu até hoje reluto um pouco em aceitar. Algo como ser melhor que muitos saibam pouco a poucos saberem muito. Com a internet e as redes sociais, bem ou mal as pessoas voltaram a ler e a escrever, no Facebook e no WhatsApp. Conseguiram deixar um pouco de lado a televisão, que parecia invencível com seus programas de auditório, telejornais e novelas matando os livros, os instrumentos musicais, a poesia, a conversa em família. Bom, a conversa anda ainda complicada.

Mas como em Um Beijo Roubado, de Wong Kar-Wai, melhor não buscar muitas razões, nem certezas de futuro. Vamos vivendo. A vida se ajeita, encontra outras formas e, ao contrário do que sustenta Norberto Bobbio em determinado momento de seu livro O Futuro da Democracia, talvez não linearmente, mas se observarmos mais de longe, a História tem melhorado. A vida das pessoas é melhor hoje. Pensem na higiene e nos direitos, por exemplo. E tem tudo para melhorar ainda mais. Entre retrocessos pontuais e avanços, estes predominam. E será o mesmo com nossa forma de lidar com o imperativo de vivermos juntos, mesmo pensando e sentindo de forma tão diferente, o que não é senão do que tenta dar conta a democracia.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

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