Cassilândia, Domingo, 19 de Novembro de 2017

Luciane Buriasco

16/10/2017 12:23

Luciane Buriasco - Até onde nossa vista pode ver

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - Até onde nossa vista pode ver

 

 

 

Na semana passada comemoramos o Dia da Criança. Muitos de nós, seja pelos filhos ou sobrinhos, acabamos nos lembrando dessa data, que nos remete à nossa infância. Eu sei que ela pode não ter sido lá uma maravilha, até porque é recente essa valorização da infância. Muitos são de uma época em que a palavra de uma criança, sua vontade, mal era levada em conta. A própria proteção vem crescendo: Conselhos Tutelares, instituições de acolhimento pequenas no lugar de orfanatos, famílias acolhedoras, prioridade absoluta, que se reflete, por exemplo, nas políticas públicas e andamento dos processos, idade mínima de trabalho em dezesseis anos, enfim..

Seja lá o que vivemos, moldou nossas vidas, nossas escolhas profissionais e afetivas, saibamos ou não disso. E justamente por isso é bom lembrar da infância e ver se algum desejo não realizado ainda não tem tempo para sê-lo. Vale mexer nos guardados e ver o boletim, algum brinquedo ou desenho que sobrou.

É o que sustenta o texto A Criança em Nós, de Gustavo Ranieri, publicado na revista Vida Simples, em agosto de 2015. Ele conta que a professora escreveu em seu boletim que ele era bastante calmo e se concentrava com facilidade, bem como que não demostrava interesse nos preparativos da festa de fim de ano. Até hoje se diz capaz de escrever um tratado num ensaio de escola de samba e que não o convidem para as anuais festas corporativas porque é quase certeza que não irá. Há toda uma explicação de que os três pilares do ser, que seriam identidade, sexualidade e desejo, já estariam lá nos 3, 4, 5 e 6 anos. Essa relação com o nome, que identifica a criança, o fazer xixi em pé ou sentado, e a descoberta daquilo que gostamos de fazer, como animais, livros. Podemos, se nos afastamos demais dos nossos desejos, por exemplo, traçar caminhos de volta.

Nesse clima, assisti à última versão filme da Disney A Bela e A Fera, lançado em DVD, este ano. Pude me lembrar que a Bela, vivida por Emma Watson, era uma camponesa que não queria viver aquela vida provinciana: ia à feira, comprava o que precisava para suas tarefas de dona de casa, cruzava com mulheres que pensavam somente em roupas e queriam se casar, gente falando mal uma das outras, preconceito com quem é aparentemente só uma mendiga, lugar de dança e bebida como lazer. Um homem bonito era cobiçado como grande partido e a queria, já que bela, como esposa. Mas era sem modos e não aprovava o que ela mais gostava: ler. O filme mostra como ele apenas amava a si mesmo, capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Bela era filha de um artesão, que tinha vindo da cidade grande fugindo da peste, que havia matado a mãe de Bela, seu grande amor.

De tanto sonhar com outra vida, acabou conhecendo outro homem, que apesar do feitiço que lhe fez de aparência feia, a conquistou por ter lido Shakespeare, oferecendo-lhe uma imensa biblioteca, com títulos em grego, inclusive. Tinha modos e comia com vários talheres, embora nessa altura do feitiço já tinha aprendido que era gostoso virar o prato da sopa também. Não foi o castelo que a seduziu; ela logo percebeu que o príncipe era só ali, tanto quanto ela em sua pequena cidade. A conexão real com pessoas com quem temos afinidade é que nos tira, afinal, da solidão. Bela realizou seu sonho e não viveu uma vida provinciana.

No caso de Bela, seu pai não queria aquela vida para ela e por certo lhe contou do que aprendeu na cidade grande. Deu-lhe esse horizonte. Tanto que quando ela teve a chance de estar em qualquer lugar do mundo, foi até onde o pai antes morava. Djavan, cantor que adoro, inclusive porque minha irmã me contou que me fazia dormir com suas músicas, chama sua mãe de Dona do Horizonte. É que foi ela que dizia que ele seria um cantor famoso e o preparou a seu modo, daí o nome da música onde ele conta essa história. Podemos lembrar de Como Nossos Pais, composta por Belchior, popularizada na voz de Elis Regina, mais recentemente gravada pela filha, também cantora, Maria Rita.

Tudo para lembrar que nossa vista alcança até onde nos foi mostrado, principalmente por nossos pais, a ponto de, seja isso um plano feliz ou não, chegarmos onde nos disseram para chegar, e sermos em muitos aspectos como eles são ou eram.

Mas nada, salvo questões psicológicas, nos impede de irmos além, conforme novos horizontes nos sejam mostrados. Mestrado, Doutorado, enfim, vida acadêmica, não me foi mostrada por meus pais, e sim pelos professores da faculdade. Línguas estrangeiras eram admiradas por minha mãe, mas surgiram como uma normalidade no convívio com meus professores. Os Congressos também começaram na faculdade e me acompanham até hoje.

Assim é que a vida, ao morarmos fora, intercâmbio, para quem fez, leitura, amigos, parceiros, alargam aqueles horizontes mostrados por nossos pais e nos possibilitam ir além, aumentar até onde nossa vista pode ver. É conosco chegar lá.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

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