Cassilândia, Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017

Luciane Buriasco

07/08/2017 08:20

Luciane Buriasco - A Desilusão da Esquerda

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco - A Desilusão da Esquerda

 

 

 

Estreiou este final de semana em São Paulo a peça de teatro A Plenos Pulmões, sobre a vida do poeta da Revolução Russa, Vladimir Maïakovski. Sua poesia é fantástica. Destaco O Poeta Operário, na qual compara o ofício do poeta ao do trabalhador braçal. Começa assim: “Grita-se ao poeta: ‘Queria te ver numa fábrica! O quê? Versos? pura bobagem! Para trabalhar não tens coragem.’ Talvez ninguém como nós ponha tanto coração no trabalho. Eu sou uma fábrica. E se chaminés me faltam talvez sem chaminés seja preciso ainda mais coragem”. Mais à frente: “Quando serrais madeira, é para fazer lenha. E nós que somos senão entalhadores a esculpir a tora da cabeça humana?”. Mas o ponto alto me parece ser este: “Quem vale mais: o poeta ou o técnico que produz comodidades? Ambos”.

Maïakovski era socialista, acreditava piamente na igualdade dos trabalhadores, no fim das classes sociais, que o trabalhador braçal, inclusive, em poucos anos, conseguiria ler sua poesia e compreender seu alto linguajar. Acreditou tanto que escreveu a plenos pulmões na Revolução. Mas, implementado o governo comunista, com a morte de Lênin e o exílio de Trotski, sob o comando de Stálin, um verdadeiro doente mental, nada disso aconteceu. Ele se tornou de elite, somente um seleto grupo de intelectuais podia entender o que ele dizia. O operário não. Foi então criticado pelos mais jovens, muitas vezes esquecido. Seus amores também nunca lhe tiraram da condição de amante. Desiludido, acabou se suicidando. Depois da morte, como sói ocorrer, foi reconhecido.

A peça toca uma música do Brasil, querendo nos instigar a fazer uma relação. Arrisco a minha: afora a sempre atual incoerência humana, que dá mais valor aos mortos que aos vivos, a esquerda no poder aqui também trouxe desilusão. Talvez se tivéssemos alguém tão a plenos pulmões e que tivesse trabalhado com tanto coração e sem se corromper, teríamos algum suicídio por aqui. O Brasil sempre tinha sido liderado por elites, pela direita. De repente, depois de anos tentando e servindo de oposição, a esquerda chega ao poder. Era a primeira vez que o trabalhador teria vez. Quem sabe acabasse a fome, diminuísse a desigualdade social, melhorasse a educação dos mais pobres. Não foi o que aconteceu.

Certa vez li um artigo no Le Monde Diplomatic, um jornal francês de certa inclinação de esquerda, que o erro da esquerda na América Latina foi ter optado por incrementar a renda do pobre em vez de investir em serviços públicos e fomentar o associativismo. É que assim aumentou a direita. Todos agora querem IPhone, brincou o artigo. É que essa política fomentou o individualismo, o consumo, e agora o cidadão que saiu da miséria diz não mais precisar da esquerda. Tornou-se de direita. E se poderia acrescentar dois ingredientes aqui no Brasil, o que o artigo não faz: houve um pacto de não atrapalhar o enriquecimento dos grandes empresários e expandiu-se ao que consta a distribuição de propina, como trouxe à tona a Operação Lava Jato, fazendo com que grandes capitalistas apoiassem a esquerda e os dirigentes dela enriquecessem-se. Mais ainda , o aumento da renda do pobre foi feito sem dinheiro para isso e agora alguém tem que pagar essa conta, e parece que vai ser o próprio trabalhador (a única reforma que passou até agora foi a trabalhista), que também sofre mais com a crise financeira e a inflação.

A desilusão, portanto, também foi grande por aqui. Tão grande que por mais que não tenha a simpatia popular, o Fora Temer foi bem mais tímido que o Fora Dilma. A rejeição à esquerda é hoje maior. Tudo bem, fala-se em compra de votos para o Legislativo ter rejeitado a denúncia de Temer na semana passada. Ainda haverá o Judiciário. Mas o fato é que o povo não foi às ruas como foi pela saída da Dilma. Querem que ele termine o mandato, temem talvez mais crise econômica. A eleição está mais perto que há um ano. Mas não podemos nos esquecer da desilusão. A raiva de um dia ter acreditado numa mentira.

A desilusão, aliás, é a mesma de Maïakovski, mas o sentimento é diferente. Não vemos saída, mas há de haver alguma saída. E vamos vivendo, esperando, lutando. Afinal, as coisas são assim no Brasil e isso é positivo. Stálin nunca mereceu, afinal, o suicídio de Maïakovski. Quanto mais ele poderia ter deixado de poesia! Quanto mais poderia ter esculpido a tora de nossas cabeças!

O que Maïakovski não compreendia é que teria que humildemente aceitar que não poderia mudar o mundo; controlar o comportamento das outras pessoas, seja seus companheiros de ideal, seja seus amores. Quando muito, aprender a controlar suas próprias emoções. Mas eram outros tempos e um outro país.

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

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