Cassilândia, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

Luciane Buriasco

20/03/2017 07:30

Luciane Buriasco: A Democracia e nossas fontes: de onde vem o que pensamos?

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Luciane Buriasco: A Democracia e nossas fontes: de onde vem o que pensamos?

No mundo ocidental, predomina hoje o pensamento de que a democracia seja o melhor regime de governo. A escolha de seus destinos pela maioria da população parece o que há de mais legítimo mesmo. Por isso não só a escolha dos governantes, como decisões importantes têm sido submetidas a voto, plebiscitos e referendos. Com a inesperada saída do Reino Unido da União Européia e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, voltou-se a questionar a democracia. Ao menos a se pensar sobre ela.

Na China, onde não há democracia, segundo artigo publicado este mês no Le Monde Diplomatic[1], não há propriamente pessoas contra ou a favor da democracia. É que mesmo os que consideraríamos democratas sustentam em seus discursos, que o artigo cita, que nem todos os chineses teriam condições de votar, já que muitos são sem instrução, do meio rural. No Brasil, como se sabe, até analfabetos votam.

Mas se é legítimo que o povo, seja ele quem for, com ou sem instrução, escolha seus dirigentes e os rumos do lugar onde vive, como fazer com que não sejam manipulados, que esta escolha seja mesmo a sua?

Nas campanhas políticas, já há anos descobriu-se o marketing, parecendo-se ser ou fazer o que não é nem vai fazer. Há um filme interessante sobre isso, chileno, chamado Não, de Pablo Larraín, com Gabriel García Bernal. No filme, ao se preparar a campanha do não à continuação da ditadura, num primeiro momento, pensava-se em mostrar seus horrores, o que seria natural. Mas o marketing recomendava outra coisa: as pessoas querem ver felicidade, não horrores, querem esquecer disso, ver um outro tempo. Então se passou a mostrar felicidade, um outro tempo. O "não" ganhou por lá.

Mas a coisa vai mais longe. Como formamos nossas opiniões? Conversas com amigos, vizinhos, colegas de trabalho? Lemos algum jornal? Qual? Você sabe se o jornal que lê tem uma inclinação política de esquerda ou de direita? Quem são seus donos? Como obtém recursos para se manter? O mesmo se aplica a revistas e sites de informação.
E os livros que você lê? Está na faculdade? O que dizem seus professores? Assiste novela? Jornal na TV, rádio? Somos influenciados a todo instante e não há como fugir disso.

No caso do Reino Unido, penso que tinham tão por certo que não sairiam da União Européia que não se promoveram muitos debates, programas televisivos e nas rádios, enfim, não se chegou até o povo e suas insatisfações e não se pôde dizer a eles que isso não melhoraria o emprego ou o poder aquisitivo deles. Talvez coisa do gênero tenha se dado nos Estados Unidos. A eleição na Holanda, na semana passada, não deu vitória ao populismo. Bom sinal de recuperação.

De fato, não há nada melhor do que a democracia, mas há que se despertar as pessoas para tudo o que as influencia, para que façam escolhas realmente legítimas, já que é tão legítimo que escolham.

Na internet aconteceu recentemente um fenômeno interessante. Primeiro, tudo de graça, à disposição. Falava-se até em jornais e cantores falirem. Os jornais que não ficassem com conteúdo aberto na internet corriam o risco de fechar e os cantores viam suas músicas baixadas gratuitamente. De repente, tudo foi mudando. Os jornais estão cobrando suas assinaturas, deixando às vezes um limite livre, algo como dez artigos por mês, cobrando se ultrapassado isso. Há jornais, como o Le Monde Diplomatic citado, uma publicação mensal, disponível somente para assinantes. E vai bem financeiramente. As músicas seguem sendo baixadas, mas agora através de assinaturas como a Apple Music e o Spotify, inclusive com rádios e listas de músicas próprias. Pode-se tudo co m a internet, mas se escolhe o que ler e ouvir e agora já não há problema em pagar por isso[2], tamanha valorização da fonte.

Há quem veja notícias apenas pelo Facebook, curtindo meios de comunicação e colunistas de forma que apareçam em seu feed o que gostam, uma espécie de notícias à la carte, como ressaltou Contardo Calligaris recentemente[3], com risco de achar que o seu mundo e o dos seus amigos tornaram-se o que pensam todos no Planeta Terra.

Nosso mundo tal qual o vemos, além das escolhas no Executivo e Legislativo, também fazem parte do Judiciário, na medida em que o juiz julga baseando-se no que sabe. Não só o que é trazido aos autos. A decisão que suspendeu os efeitos do segundo decreto imigratório de Trump, na quarta-feira passada, por exemplo, publicada na íntegra do jornal The New York Times daquele dia, menciona entrevistas de imprensa e declarações em redes sociais do Presidente para dizer das motivações de preconceito religioso por parte dele, por trás do decreto - tanto que a defesa pedia para que se ativesse aos termos do decreto tão somente - pois tais motivações o fazem inconstitucional.

O juiz disse a origem de suas alegações, em claras notas de rodapé. Tento fazer o mesmo em textos como este, que você lê agora. Nem todos, contudo, zelam por esta transparência. Imaginem se tivéssemos que fazer uma nota de rodapé em nossas conversas. Ou que solicitássemos notas dos demais. De onde vem o que se pensa?

Se hoje já se sabe que a verdade é sempre a opinião de alguém, é bom ser ciente das opiniões que escolhemos ter, influenciadas por quem escolhemos acreditar. Afinal, democratas ou não, fazemos nossas decisões todos os dias de acordo com nossas fontes. E isso se reflete à nossa volta.

NOTAS:

[1]En Chine, La Démocracie Quand Le Peuple Sera Mûr, de Jean-Louis Rocca, Março de 2017, págs. 22-23.

[2] How The Internet is Saving Culture Not Killing it, de Farhad Manjoo, no The New York Times, publicada em 15 de março de 2017.Link : https://www.nytimes.com/2017/03/15/technology/how-the-internet-is-saving-culture-not-killing-it.html?_r=0

[3] Somos os Maiores Inimigos de Nossa Possibilidade de Pensar, de Contardo Calligaris, colunista da Folha de São Paulo, publicada em 29/09/2016. Link: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2016/09/1817706-somos-os-maiores-inimigos-de-nossa-possibilidade-de-pensar.shtml

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito em Cassilândia, Mato Grosso do Sul, membro do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família, IBCCRIM – Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e bacharel em Direito pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.

Rico texto. Escrito por mãos abalizadas e muito bem fundamentado em princípios democráticos e vivência contemporâneas. Conteúdo profundamente descrito, sob argumentos insofismáveis de bom conhecimento do tema. Parabéns Dra. Luciane. Sua mensagem é um sólido roteiro daquilo que o bom senso recomenda para os brasileiros.
 
Milton Loureiro de Macedo em 06/04/2017 12:53:59
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