Cassilândia, Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017

Luciane Buriasco

06/11/2017 08:20

Artigo - Sacrificam-se peças para se manter o jogo: Política e Hollywood

Magistrada Luciane Buriasco Isquerdo
Artigo - Sacrificam-se peças para se manter o jogo: Política e Hollywood

 

 

 

No House Of Cards da política brasileira, estamos há anos vendo políticos e empresários caindo a seu modo, delatando, sendo presos, perdendo cargos, por tudo que veio à tona com a Operação Lava Jato, que dispensa apresentação, como talvez dispense o seriado americano da Netflix, do qual já tive a oportunidade de falar em outras colunas, baseado num livro homônimo, escrito por um congressista britânico, que mostra muito bem os bastidores do poder, com seus dossiês contra quem se quer derrubar e a relação com a mídia, usada como guilhotina dos dias atuais.

Todos hoje sabemos, se já não sabíamos, como se conseguia contratos com a Petrobrás, a maior empresa estatal brasileira. Propinas, financiamento de campanhas políticas, com o cumprimento da lei de licitações sendo mera maquiagem de legalidade. Melhor assumir, delatar, manter a empresa aberta. Assim optou a Odebrecht. Antes ainda, lembro-me da feição de Dilma nos jornais da TV ao ter que demitir Palocci. Acho que vi lágrimas em seus olhos. Mas era preciso mostrar que não se estava conivente com ele. Depois foi a vez dela: impeachment para se simbolizar o fim de uma corrupção que não acabou.

Nos Estados Unidos há uma sequência recente de sujeira vindo à tona na forma de denúncias de assédio sexual à mídia: Bill O’Reilly, comentador da Fox News forçado a se aposentar em abril; Harvey Weinstein, gigante produtor de cinema hollywoodiano, mais agradecido que Deus nas cerimônias do Oscar (1), demitido da Miramax e de sua própria empresa, a Weinstein Company, por trás também da plataforma de streaming do Netflix, em início de outubro; e Kevin Spacey, no topo de sua carreira, vivendo o protagonista da série símbolo da Netflix, a House Of Cards (2), cancelada no final de outubro.

Também já se sabia por lá que mulheres no mercado de trabalho, especialmente no mundo artístico, seguem sendo objeto sexual mais que colega de trabalho, daí ser alvo fácil de assédio sexual. As histórias de Harvey Weinstein descritas na reportagem da Revista The New Yorker, de Ronan Farrrow, dando continuidade ao publicado no The New York Times, que levou à demissão do produtor, narram procedimentos similares, a maioria consensuais, mas de um consentimento obtido pelo que ele representa e poderia fazer de bom ou de ruim à carreira de atrizes iniciantes, espécie de ameaça, parecida com a prática conhecida por aqui no meio televisivo por teste do sofá.

Mas as providências de demissões vindo assim tão rápidas da Miramax e Netflix, - e, no caso da Fox News, divulgado restou que movida pela saída dos patrocinadores dos programas do canal, - bem demonstram que o que as move não é senão um desejo de que a marca não seja atrelada a algo negativo, para que não haja perda financeira. Mais ainda, parecer que se tomou providência e que as coisas então serão diferentes dali por diante.

Sacrificam-se peças, ainda que peças-chave, para se seguir sendo como sempre foi. Queria muito acreditar que não, que a corrupção e o assédio sexual assim à mostra pudessem levar a uma mudança de práticas. Quem sabe, num futuro longínquo. Quem sabe o resultado simbólico saia do controle e vá além da mera estratégia de defesa das instituições e empresas. Mas que é isso, é isso.

(1)Reportagem de Ronan Farrow na revista The New Yorker, de 23 de outubro de 2017, entitulada Abuses Of Power.

(2)http://noticiasdatv.uol.com.br/mobile/noticia/series/serie-simbolo-da-netflix-house-of-cards-e-cancelada-apos-seis-temporadas-17525

Luciane Buriasco Isquerdo é Juíza de Direito da 2.a. Vara Cível e Criminal de Cassilândia-MS, apresentadora dos programas de rádio Culturativa (http://www.radiopatriarca.com.br/culturaativa.asp) e Em Família, na Rádio Patriarca. Siga-a no Tweeter: @LucianeBuriasco

 

 

 

 

 

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